Sport Clube de Mesão Frio aposta na formação

Em Mesão Frio, um concelho com cerca de 5000 habitantes, há um clube onde quase 100 jovens praticam desporto e que sobrevive com o apoio da autarquia. O Sport Clube de Mesão Frio é a segunda família destes jovens.

São 19 horas e os jovens começam a chegar ao campo do Sport Clube de Mesão Frio onde, nas próximas duas horas irão ter mais um treino, à nossa espera está o presidente do clube, António César Gomes, que ao ver os miúdos no centro do relvado em conversa com o treinador, faz uma contagem mental e afirma “faltam dois, hoje não está a equipa toda”. Refere-se aos juvenis, o escalão que treina neste dia.

Possivelmente as faltas podem dever-se a algum castigo em casa, como nos conta o presidente, “quando se portam mal ou têm más notas é o futebol que paga, o castigo é logo ficar sem os treinos, em vez de ser o telemóvel ou o computador. É preciso começar a olhar para estas atividades pelo lado desportivo. Durante o tempo que estes jovens estão aqui é a isto que se dedicam, abstraindo-se das coisas más. Estão concentrados, e bem, naquilo que estão aqui a fazer”.

A expressão do responsável do clube muda ao falar dos jovens que vêm de outros concelhos para treinar aqui, sente-se o orgulho nas suas palavras. “Temos alguns jovens que vêm para aqui mesmo sendo de concelhos vizinhos como é o caso da Régua ou Baião, não só pela proximidade como também pelas boas condições que aqui encontram”.

As condições parecem ser realmente boas, apesar dos balneários serem ainda em contentores, “já foi bem pior”, afirma um dos funcionários do clube que por ali passa.

“Este sintético foi inaugurado em 2017, ainda não são as condições totais que eu, como presidente, gostava de ter mas a autarquia tem feito um esforço enorme para nos proporcionar aquilo que temos. Ainda falta construir as bancadas e os balneários. Segundo o autarca, até ao final do seu mandato, as obras da bancada e balneários ficam prontas. Sempre cumpriu a palavra que nos deu, por isso acredito nele.

Neste momento o apoio da câmara é o suficiente, até porque não é um apoio só das verbas que nos dão mas também ao nível dos transportes para as deslocações das equipas para os jogos. Parecendo que não é um apoio muito importante para nós. A Câmara dá dois mil euros por equipa, um total de 10 mil euros anuais, que são recebidos em cinco parcelas mensais.

Margarida Alves

Se não fosse a Câmara o clube não existia, não seria possível. Aqui é difícil conseguir patrocínios de empresas particulares, temos alguns patrocinadores mas a verba não é muito elevada e para conseguir o que temos já foi um esforço muito grande e como se sabe “isto é de marés”, este ano a empresa “x” pode apoiar mas no próximo ano já não apoia, enquanto da parte da autarquia sabemos sempre o financiamento que podemos esperar”, afirma António Gomes.

De fora do concelho vêm também alguns dos treinadores que aqui trabalham, “todos formados em educação física e com curso de treinador”, como é o caso de Paulo Machado, treinador do escalão que continua a treinar afincadamente.

Para o treinador, natural de Resende, este é o projeto ideal para esta fase da sua carreira. “É um clube que aposta somente nos escalões de formação e tudo o que se passa no clube gira em volta destes miúdos. Nesta fase da minha vida era um projeto que eu queria, no futuro poderei ambicionar trabalhar com seniores mas por agora estes escalões são os que eu queria trabalhar”.

Para o jovem treinador, esta é uma parte importante do dia destes atletas, que funciona não só como um momento de distração como os pode ajudar em termos escolares, dando-lhes valências que de outra forma seriam mais difíceis de atingir.

Paulo Machado

“É um fator de inclusão, temos aqui miúdos que passam algumas necessidades ao nível económico e praticar desporto é muito bom. Quando chegam ao final do seu dia de escola têm aqui a oportunidade de realizar uma atividade que, para além de tudo o resto, lhes transmite valores como a dedicação e o empenho com que fazem, e mesmo a sua capacidade de superação.

Depois é uma atividade que lhes enriquece o currículo e nós aqui tentamos sempre que eles tenham um bom aproveitamento escolar mas não é fácil controlar isso”.

Entre os jovens que treinam há uma rapariga, a Margarida, “grande jogadora e uma excelente aluna”, afirma o presidente.

“O futebol para mim é também um escape que eu tenho para libertar o stress que acumulo durante a semana. Treino aqui duas vezes por semana, mais uma na seleção e jogo ao fim de semana, são horas em que na minha cabeça não há mais nada a não ser o futebol.

António Ribeiro

A minha prioridade são os estudos mas aí o futebol também desempenha um papel muito importante, até porque me ajuda, por exemplo, com a concentração. A minha posição é guarda-redes, tenho que estar com muita atenção ao que se vai passando no jogo e não posso em momento algum distrair-me, na escola funciona da mesma forma”, diz-nos Margarida.

António Ribeiro, outro dos atletas diz que nem sempre é fácil conciliar os dois mas o esforço compensa. “Ás vezes é difícil conciliar os estudos com o futebol mas é bom para nos ajudar na concentração e a ganhar respeito pelos outros”, o jovem atleta reforça ainda a importância da pratica desportiva, “temos oportunidade de praticar desporto, ainda por cima futebol que todos nós gostamos”.

Margarida é das poucas raparigas a jogar futebol no clube, já chegou à seleção distrital mas diz que o Sport Clube de Mesão Frio será sempre a sua segunda família, que sempre a acompanhou mesmo num momento mais difícil como uma lesão que teve, e que a afastou dos relvados por um longo período de tempo.

“Eu comecei a jogar aqui com 6 anos de idade. Infelizmente estive afastada alguns anos devido a uma lesão e voltei este ano a jogar. O desporto sempre foi muito importante para mim, nomeadamente o futebol, algo que eu gosto muito.

Sempre fui bem recebida aqui, mesmo quando estive afastada devido à lesão fui acompanhando o clube e o clube foi-me acompanhando a mim, nunca deixou de fazer parte da minha vida.

Embora ainda sejam poucas as raparigas a praticar futebol acho bastante positivo que a direção do clube aposte no futebol feminino, foi assim que eu consegui chegar à seleção distrital, de outra forma não o teria conseguido. Eu desde pequena que me habituei a jogar com rapazes. É completamente diferente de jogar com outras raparigas mas o ambiente é bom, os colegas são bons para mim, não aqui aquela coisa de “ela é rapariga não sabe jogar”. Somos uma família aqui dentro”.

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