Parambos, a aldeia 100% Sporting celebrou o título do leão

Logo na entrada da aldeia um leão em pedra deixa adivinhar que estamos em terra de sportinguistas, uma certeza que se tem ao chegar ao centro do povoado onde outro leão, este já devidamente decorado com as cores do clube de alvalade, ostenta a frase: “Aqui manda o Rei Leão”.

Vem de longe esta ligação da aldeia de Parambos ao clube verde e branco, mais concretamente desde 1937 quando um grupo de jovens fundou o Sporting Clube de Parambos, a 87ª filial do clube leonino.

Quem nos conta a história é António Pinto, o atual presidente do clube, que nos recebe entre os preparativos para mais uma tarde de festa já com o título de campeão nacional garantido. “Hoje é um dia de alegria, de festa”, afirma.

Regressando à fundação do clube local e à ligação com o Sporting Clube de Portugal, António Pinto conta como tudo aconteceu.

“Na altura a juventude fazia os arraiais populares e quando sobrava dinheiro era costume entregar na Junta Fabriqueira que era a representante da igreja. Nesse ano em vez de entregarem o dinheiro decidiram comprar uma grafonola para fazerem os bailes. O problema dito é que não havia onde deixar a grafonola, não seria justo ficar na casa de um ou outro do grupo então decidiram fundar um clube que ficaria responsável por ela.

Na altura havia a moda das filiais dos clubes e o Sporting era o clube com mais filiais no país, por isso este grupo decidiu escrever uma carta ao clube para serem também uma filial, pedido que foi aceite tendo esta filial o número 87.

Com o êxodo dos emigrantes e o desaparecimento dos jovens da aldeia o clube teve um interregno, contudo a chama sportinguista continuou.

Em 1976 matriculei-me no Instituto Superior de Agronomia e na mesma tarde fui a Alvalade. O presidente das filiais e delegações era o Sobral Júnior que me recebeu. Eu era um miúdo na altura e tremia como varas verdes mas quando ele me disse “exponha a sua razão”, então comecei a falar do Sporting durante 2 horas. No fim ele deu-me 11 leões dourados e disse-me que voltasse a Parambos e que os entregasse aos 11 mais acérrimos sportinguistas daqui. Isto de ser mais sportinguista é complicado porque ser Sporting não se mede a metro, o nosso sportinguismo é dos pés à cabeça.

Quando vim nas férias de Natal fizemos uma reunião da aldeia, em 25 de dezembro de 1976, onde criamos uma comissão instaladora do clube e daí até agora nunca mais parou”.

Esta ligação viveu um dos seus momentos mais altos em 1989, o Sporting tinha jogo marcado em Chaves, o presidente do clube era Jorge Gonçalves que decidiu levar a equipa até à pequena aldeia transmontana acompanhada por um batalhão de jornalistas, como recorda António Pinto.

“Em 1989 o presidente Jorge Gonçalves trouxe a equipa do Sporting a Parambos quando jogamos em Chaves, uma visita que foi acompanhada por 40 jornalistas, foi um momento que colocou Parambos no mapa, até então era uma aldeia como as outras”.

Questionado sobre como seria receber a atual equipa com a taça de Campeão Nacional, António Pinto não tem dúvidas, “seria um dia especial mas temos a noção que hoje isso é impossível, o futebol é hoje uma industria muito grande e trazer aqui a equipa não é o mesmo que trazer um grupo excursionista”.

Apesar disso o sportinguismo nesta aldeia vive-se como em pouco locais “aqui a aldeia é Sporting e o Sporting é a aldeia”, afirma o presidente do clube local.

O único lamento de António Pinto é que agora “é mais difícil” fazer a viagem anual até Lisboa para ver o Sporting jogar.

“Por tradição nós fazíamos sempre uma viagem a Alvalade para ver um jogo mas hoje em dia é muito difícil porque as televisões é que mandam e os jogos acabam por ser muito tarde, e marcados com uma ou duas semanas de antecedência, o que dificulta para quem é de tão longe. Outro problema é que há cada vez menos gente na aldeia e por isso a questão do transporte também é difícil, temo que nos juntar com outros núcleos para conseguirmos encher um autocarro. Na última viagem que fizemos foram 17 lugares vazios, que têm de ser pagos e isso não é fácil”.

Áurea de Sousa

Entre os primeiros a marcar presença na sede do clube está Áurea de Sousa, vem com um bolo nas mãos e vai avisando que só apareceu “para entregar o bolo” porque a tarde de afazeres está só a começar.

“É altura de festejar, estivemos muito tempo sem esta alegria por isso agora é altura de festejar com um bolo verde, por dentro e por fora”.

Questionada sobre se é mais difícil ser sportinguista longe de alvalade, Áurea não hesita em responder, em tom assertivo: “ser sportinguista é em todo o mundo, seja em Lisboa, aqui em Parambos, em França ou na Suíça”.

Numa aldeia que segue a lógica do interior, onde a maioria da população tem já avançada idade encontramos Bruno Pássaro, um adepto sportinguista com 18 anos que, até este ano, não tinha ainda vivido a alegria de ser campeão.

Bruno Pássaro

“É um momento fascinante. Quando começou o campeonato não tinha muitas esperanças até porque os nossos adversários diretos fizeram grandes investimentos, em especial o Benfica mas estou muito feliz pelo título.

Foi um momento feliz, vivendo no Porto sempre tive amigos que se metiam comigo por causa do Sporting mas este ano correu bem, agora é esperar por mais títulos”.

António Castro Pinto

Na sede do clube está já também António Castro Pinto, o sócio leonino mais antigo da aldeia, “são 58 anos de sócio”, afirma convicto.

É natural de Parambos e assegura que na aldeia “vive-se Sporting de manhã à noite”. Contudo já teve oportunidade de viver o seu sportinguismo bem próximo de alvalade, “estive na Força Aérea e ia ao estádio sempre que havia jogos”.

Questionado sobre o que este título significa, António Castro Pinto hesita antes de responder, “nem sei bem explicar, é uma alegria especial, não por mim mas pelos meus netos que, apesar de terem nascido no início dos anos 2000, nunca tinham tido a alegria de ver o Sporting campeão. Em especial por esta juventude que acompanhou o Sporting nos últimos jogos, é um prémio fantástico”.

As palavras faltam para descrever o que sente tal como para falar do seu passado ligado ao Sporting Clube de Parambos, onde foi jogador.

“Uma alegria muito grande, um orgulho, é algo que nos marca para toda a vida. Desde muito pequenos já era uma alegria ir para o campo com o equipamento, depois mais tarde, quando começamos a jogar é uma alegria imensa”.

Antes do início do jogo, e já com as carnes a serem temperadas para o churrasco, uma pequena bateria de foguetes é lançada à porta da sede do clube como um chamamento para aqueles que ainda não estão por ali porque, “o dia é de festa, de alegria”.

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Um comentário em “Parambos, a aldeia 100% Sporting celebrou o título do leão
  1. Um Sportinguismo especial. Para nós que vivemos a meia-hora do Estádio do nosso amor é com emoção que lemos estes relatos e descrições de um Sportinguismo militante! Merecemos mais alegrias, espero que não seja só daqui a 19 anos!

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