Paulo Costa: “Não há cenário no mundo que permita corrida mais bela que a nossa”

Homem do Douro, apaixonado pela região e crente num futuro positivo para o território que empresta o nome à prova desportiva que organiza e que este ano celebra a sua 15ª edição, a Meia Maratona do Douro Vinhateiro.

Foi a propósito desta prova que fomos conversar com o gestor cujas origens nos levam até Poiares, uma freguesia do concelho de Peso da Régua, onde a região não podia ficar esquecida.

Como é que neste momento olha para a região do Douro?

Olho com amor e paixão que é o que nos une a todos, e acho que é o ADN que nos identifica, é aquilo que nos mantém presos de forma umbilical a esta região, é paixão, quase que diria um enamoro eterno pela paisagem, luz, cheiros e sabores.

Por mais vezes que passemos em determinados sítios, o sentimento nunca é igual, é mais intenso, mais forte e mais enigmático. Arrepio-me só de falar, e é bom falarmos da nossa terra. O Douro é único, esta simbiose de homem e natureza é única.

José Armando Saraiva dizia que se houvesse raça no mundo nós eramos anti raça por várias características, tudo isto sintetizado num Douro, criaram o Vale do Douro, um lugar muito especial. Lendo Miguel Torga percebe-se que em cada poema ele tenta explicar o porquê de se amar o Douro mas sempre de formas diversas.

Existem imensos pontos fortes da região, mas também existem fracos. Qual considera que seja o ponto fraco desta região?

Temos pensado no porquê de sermos uma das regiões mais pobres do país e da Europa. Talvez pela descentralização e falta de população mas também pelo centralismo onde vivemos. Marquês de Pombal era alguém muito inteligente e criou o primeiro imposto de vinho do mundo, que foi aqui no Douro.

O Douro tem sido bastante trabalhado, porque esta terra é montanhosa e sempre foi tudo muito complicado. Quem produz vinho faz acontecer, no entanto cria uma riqueza muito individualizada. Éramos um território de aldeias mas cada um se fechava nos portões das suas quintas, a partir do século XVI melhorou um bocado. Mas penso que o ponto fraco neste momento continua a ser o facto dos portões das quintas continuarem a existir, como na área dos eventos por exemplo.

Evoluímos no sentido de “o segredo é a alma do negócio” mas a verdade é que  o ponto fraco é mesmo esse, é um território que tem multi territórios e cada um se defende a si próprio. Cada um acha-se melhor que o outro, quando temos uma única coisa que é de todos nós, a marca Douro. Tem de haver ligação, escala e dimensão no mundo em que vivemos, é mesmo muito importante, e neste momento é vital para a sustentabilidade deste território. Temos características únicas que têm de ser aproveitas.

Essa divisão que refere é um dos fatores que o leva a ir residir para o Porto?

O que me arrasta até aqui é o meu filho. Nasci na Régua em 1976, fiz muita coisa na Régua, estudei no Porto e regressei ao Douro, fui para Lisboa e voltei. Estou à dois anos no Porto porque o estado de saúde no território é uma desgraçada, é um problema grave. Quando uma região está muito dividida, nós sentimos que temos uma pedra no sapato, porque não saímos do sítio e quando nos sentimos diminuídos nas nossas propostas, de forma natural vamos olhando para outros projetos que tenham essa escala e dimensão.

O projeto Meia Maratona do Douro nasce da minha visão de procurar um projeto que fosse capaz de unir o Douro, capaz de criar uma dinâmica de comércio e alavancar a marca Douro. Esta visão vem de lá de trás e só fazia sentido criar algo com a marca Douro, desde que o Douro no seu todo estivesse envolvido. Quando isto não acontece, as pessoas afastam-se naturalmente.

Paulo Costa com vários autarcas do Douro

Recentemente chegou a notícia de que o comboio turístico terminou e o comboio a vapor foi reduzido a metade nas suas viagens. O que é que falta na região para que esta  se una e reivindique as coisas que se vão perdendo?

Isto é apenas algo de mau que nos fazem, entre outras situações, esta de facto já não é a primeira. Então, reduzem os custos dos passes e fazem isto tudo no mesmo timing? Pessoas que pagavam 140 euros de passe vão pagar 40 euros, eu gostava de saber quem vai pagar os outros 100 euros.

A CIM Douro devia de estar envolvida em todos os projetos, é este peso político que o Douro não tem e que acaba por dar o direito das pessoas tomarem estas decisões que não fazem sentido nenhum.

Precisamos de motivar os que estão e aqueles que querem vir, tem de haver uma voz dura e ativa perante estas várias situações. Têm de perceber as atrocidades que estão a fazer à nossa região, é quase como se nos estivessem a enterrar quando ainda respiramos, ainda por cima quando somos a região com maior potencialidade do pais, da europa e do mundo, mas depois a única coisas que vemos é este silêncio, sem constatações.

Isso depende apenas da política? Qual é o papel da sociedade na construção dessa voz ativa?

Tem um papel importante mas têm que nos chamar. Os empresários lutam e estão preocupados em exportar, estão preocupados em ter os hotéis cheios. É preciso que nos chamem e que nos digam que estão a ser roubados. Fecharam um colégio, e eu participei na manifestação, e fiquei estupefacto quando cheguei lá quando vi apenas um autarca e meia dúzia de pessoas à minha volta… no fechar de um colégio com mais de 100 anos que tinha uma função social crucial.

Precisamos de criar dinâmicas internas,  não precisamos de proteção. A sociedade não participa, ninguém reivindica nada, há falta de estrutura, sem dúvida. Está tudo interligado. O nosso território tem falta de líderes que tenham paixão e ambição, e existe muita gente corajosa no Douro, não sabemos é do que é que têm medo.

Foi essa coragem que te leva a criar o evento que traz ao Douro mais de 20 000 pessoas?

É um projeto que me leva ao Douro. Tinha vários projetos mas este foi o único que se realizou. Mas essa coragem veio de um jovem de 28 anos, que sonhava que seria muito mais rápido fazer acontecer do que aquilo que é na verdade.

Algumas ideias ficaram pelo caminho mas nós promovemos o evento em Paris, Madrid, etc, e essa coragem e paixão fez com que o Douro tivesse quase 20 dias de televisão com um impacto mediático bem mais importante que isso. Durante muitos anos, este foi o único projeto que houve na região e com o sucesso da EDP Meia Maratona do Douro, nasceram outros projetos de louvar, no âmbito cultural e musical também.

Quando penso no que fiz, penso que este evento representa bem mais do que uma corrida. É preciso fazer bem as coisas, é preciso sonhar e fazer melhor que os outros, apesar de estarmos numa área de exclusivo recorte paisagístico e não urbana. Há cidades de 20 milhões que não conseguem ter grandes eventos internacionais por causa da segurança, portanto são vários fatores que reverteram para esta experiência, e a sorte faz naturalmente parte do processo.

Tive a sorte de ter bons parceiros na construção deste projeto, como pessoas da terra do Douro, ou seja, um conjunto muito vasto de parceiros e eles foram fulcrais para a realização deste evento.

Paulo Costa com alguns dos volutários da Meia Maratona do Douro Vinhateiro

Quem participar pela primeira vez este ano, o que pode esperar deste evento?

O evento cresceu e ganhou estrutura de sustentabilidade e é um evento espetacular. Ano após ano prezamos por uma cadeia de valor e qualidade também em quem participa. Quem chega ao aeroporto, tem transporte especial, que é complexo, cerca de 90 autocarros, um comboio.  É a nossa preocupação numero um: mobilidade, segurança e informação. Depois há exigência na extensão do nosso produto, a visitas às quintas , aos miradouros, os passeios de barcos individuais e coletivos.

O nosso foco é uma corrida, uma experiência, que seja inesquecível. Este ano vamos direcionar o evento para promoção da área do turismo rural, e gostávamos que a Meia Maratona fosse um dos embaixadores de alguns projetos.

Somos uma cidade e região do vinho e temos muitas coisas que completam este sentido, queríamos que esta mostra do turismo local fosse o ponto de destaque desta edição.

É mesmo o cenário mais bonito do mundo?

Sim, sem dúvida. É importante perceber que visitei mais de 70 locais, alguns fazem mesmo parte da lista dos locais Património da Humanidade, em termos daquilo que é correr num cenário como este, não conheço nenhum local que o permita que desde o quilómetro zero ao 21.

A moldura humana, a alegria e o silêncio, é único. Não há cenário no mundo que permita corrida mais bela que a nossa. Esta assinatura deve ser defendida por todos os Durienses, é este conjunto de experiências que o Douro oferece.

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