Um trilho para o amor

O município de Carrazeda de Ansiães inaugurou ontem (30/06), o 12º trilho do Vale do Tua, com uma extensão de 3,5 quilómetros que liga a estação ferroviária Foz-Tua à barragem construída no rio Tua.

Com início junto à porta de entrada do Parque Natural Regional do Vale do Tua (PNRVT), este trilho percorre os passadiços do Douro fazendo depois a ligação com a antiga linha do Tua onde, os passos espaçados pelas travessas da linha nos levam até à foz do rio Tua onde a nova barragem se apresenta imponente.

Luís Pedro Martins, presidente da Entidade Regional de Turismo (TPNP), em declarações à comunicação social no decorrer da cerimónia, afirmou que este é mais um produto que a região ganha para oferecer a quem a visita, levando o turista a “mergulhar” no território.

“A questão da mobilidade é muito importante para a Entidade Regional, que tem como missão a promoção destes territórios. A melhor forma de a fazer é permitindo aos turistas, como costumo dizer, mergulhar de facto no território e, par que isso aconteça, temos que facilitar a mobilidade, é isso que estão habituados nos seus países.

Eu não defendo as visitas ao território tipo safari em que as pessoas apenas circulam e não conseguem sair nem experienciar, por isso é que a ferrovia é muito importante, permite esse contacto com as localidades, as gentes, a cultura e as tradições. Por isso defendemos a linha do Tua tal como temos vindo a fazer com a Linha do Douro, que nos permite uma ligação à região de Castela e Leão.

Nós temos a felicidade de não ter que inventar nada, hoje já há até alguns dos nossos concorrentes no Mundo que dizem que têm baixa densidade, mesmo os que não têm gostam de dizer que sim, e que têm natureza… Nós não temos que inventar, nós sempre tivemos e, se algo de menos negativo a pandemia trouxe eu tenho dito que é o facto de uma vez por todas toda a gente tenha percebido a importância destes territórios onde podem encontrar de tudo, desde os vinhos à gastronomia ou diversas atividades que as pessoas podem usufruir durante a sua estadia na região.

O trabalho que está a ser feito aqui no Parque é de excelência porque o conteúdo já existia mas está agora a ser promovido de forma exemplar”.

Para o autarca de Carrazeda de Ansiães, João Gonçalves, este é mais um atrativo para os turistas que se deslocam à região e que têm também a oportunidade de experimentar a gastronomia regional.

“Mais uma razão para que as pessoas que vêm a Foz-Tua tenham o que fazer durante o tempo da sua visita.

É um trilho muito diferente de qualquer um dos outros, dedicado a quem vem pacientemente visitar os diferentes pontos de interesse de Foz-Tua, não é um trilho destinado ao desporto até pela sua extensão, apenas 3,5 quilómetros que englobam uma caminhada pelos passadiços junto ao Douro e pela antiga Linha do Tua, visita aos miradouros e uma paisagem deslumbrante.

Não podemos esquecer também a oportunidade que as pessoas têm de poderem apreciar a nossa gastronomia e vinhos, bem como pernoitar numa das unidades que existem aqui, sejam elas privadas ou a Casa do Cantoneiro que, como se sabe, representa para a autarquia um local de promoção de divulgação dos nossos produtos”.

O autarca afirma ainda que agora fica a faltar “que venham ainda mais turistas, que se sintam confiantes e seguros nesta fase de pós-pandemia”.

João Gonçalves revelou ainda que está a ser preparada uma “remodelação do espaço público” em Foz-Tua, “não para mudar nada mas para o melhorar, fazendo com que todos se sintam mais confortáveis, turistas e população local”.

Artur Cascarejo, diretor do PRNVT, descreve o Vale do Tua como um destino de amor, salientando a localização desde novo trilho e a sua importância para o Vale do Tua.

“O nosso slogan é que o Vale o Tua é “O destino do amor” porque, quem cá vive ama o Tua e quem cá vem apaixona-se também, pela gastronomia, pelos vinhos, pelo território, pelas paisagens e cultura, no fundo, pela nossa gente, pela forma como recebemos de uma maneira única que está bem presente naquela frase de Miguel Torga, “entre quem é”, uma ideia que queremos eternizar com este nosso slogan.

Este trilho é completamente diferente dos restantes, os outros são mais orientados para a natureza, este, embora seja nesta envolvência, está mais ligado às outras componentes de valorização do território. Desde logo porque tem aqui dois centro interpretativos: a porta de entrada no Parque Natural Regional do Vale do Tua e o Centro Interpretativo do Vale do Tua e, por outro lado porque é um percurso curto que vai aproveitar a sinergia do comboio.

Neste percurso pedestre temos um paradigma do que podemos encontrar em todo o Vale do Tua”.

Críticas ao atraso da implementação do Plano de Mobilidade do Tua

Desenhado como principal contrapartida da construção da barragem Foz-Tua, o Plano de Mobilidade do Tua tem sofrido sucessivos atrasos, situação que tem gerado desagrado por parte de entidades e autarquias.

No decorrer da apresentação do novo trilho em plena estação ferroviária Foz-Tua, todos os intervenientes criticaram a situação, solicitando mesmo ao presidente do TPNP que os acompanhasse nessa reivindicação junto do poder central.

“O sistema de Mobilidade, para nós autarcas do Vale do Tua, deve ser uma realidade o mais breve possível. Não gostamos que, ano após ano, a sua implementação tenha sofrido algum atraso.

Neste momento decorreram obras muito importantes na remodelação da linha que podem servir para que se desbloqueiem muitas das situação que estão a atrasar o sistema de mobilidade.

Tenho muita esperança que seja uma realidade, tanto mais que se vê que todas as entidades envolvidas no processo têm o mesmo interesse.

Eu limito-me a ser realista, estamos no último dia de junho, a terminar as obras de requalificação que mencionei e ainda faltam outras realidades para que o Sistema possa ser implementado, portanto não gosto de me comprometer com datas quando não depende só de nós”, afirma João Gonçalves.

Artur Cascarejo assumiu um tom bastante crítico para afirmar que não foi a construção da barragem que acabou com a Linha do Tua mas o reiterado abandono deste pelos sucessivos governos, adiantando que a região se tem empenhado na reestruturação dos troços ainda existentes.

“Antes de mais interessa desmistificar que foi com a construção da barragem que a linha desapareceu, não é verdade. A linha desapareceu muito antes da construção da barragem com as mortes que aconteceram e que tiveram origem no abandono e na negligência da Administração Central relativamente a esta linha. Foi os Estado Central que acabou com a linha.

Toda a parte da linha que está à superfície está a ser valorizada, nós já compramos o comboio e o barco, já requalificamos os cais, estamos a requalificar a linha e agora o que precisamos é que os compromissos que foram feitos com o território sejam cumpridos, apenas isso.

Nem me passa pela cabeça que, depois de 16 milhões de investimento neste Plano de Mobilidade, ele seja deitado pelo rio abaixo. Os problemas que há para resolver têm que ser resolvidos”.

Para Luís Pedro Martins, a recuperação desta linha, bem como da linha do Douro, deve ser uma preocupação do poder central, não só pelo fator turismo mas também para as populações locais, assim como por uma questão de memória para com aqueles que as construíram.

“O nosso papel é a vários níveis, não só alertando mas mantendo este tema na agenda e a criação de diversos produtos turísticos que tem acontecido ajuda a pressionar o poder decisivo para que este acompanhe os projetos.

A mim não me interessa o passado, interessa-me os objetivos que tenho para o meu mandato e, de forma mito pragmática, conseguir resolver as coisas. É para isso que nós estamos disponíveis sendo uma força colaborativa.

Esta questões, quer do Tua mas também da Linha do Douro não devem ser só olhadas pela vertente turística mas também pela sua importância para a mobilidade interna das populações que aqui residem e como fator a atração e fixação de pessoas.

Outro fator pelo qual vale a pena investir nestas linhas, e que quase nunca é referido, é a memória. A memória daqueles que construíram estas ligações com muito sacrifício numa altura em que a tecnologia era quase inexistente”.

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