Fernando Pimenta: “A riqueza da simplicidade está, sobretudo, na família”

É visto por todos que és uma pessoa simples, sem grandezas. Para ti, o que é a simplicidade e onde está a riqueza da mesma?

A riqueza da simplicidade está, sobretudo, na família. Tudo aquilo que sou hoje, ou grande parte, provém dos valores que me foram transmitidos em família. Toda essa simplicidade de saber poupar, de saber ser boa pessoa e bom cidadão. Isso vem essencialmente das raízes que tenho da minha família e, também, penso que vem da cultura. Acho que Portugal é um país simples e refiro, particularmente, a zona Norte e esta minha região do Alto Minho.

E, na prática, como transmites esses valores recebidos na conquista das tuas relações?

Sem dúvida que aquilo que conquistei foi amigos. Posso orgulhar-me de ter muitos. Por exemplo, no meu aniversário deste ano, o primeiro telefonema que recebi foi da Eslováquia. E recebi mensagens de todos os cantos do mundo. Quer as coisas corram bem ou menos bem, tenho sempre o apoio de muitos colegas e amigos estrangeiros. Aí vejo que estamos a trilhar um bom caminho.

E o que é que esses amigos estrangeiros mais valorizam na tua amizade. O que é que, para eles, sobressai na tua pessoa?

Acho que é a forma de eu ser, o modo próximo de estar com eles, a maneira sempre divertida com que interajo com eles, mesmo em momentos de maior pressão e, porventura, de maior constrangimento. Ouço dizer: “o Fernando Pimenta marca a diferença por onde está”. E é bom sentir isso. Mesmo da parte da Federação Internacional de Canoagem, que acho que gostam de mim. No fundo, é seguir a minha maneira de ser e não ligar muito a opiniões menos boas, de quem possa não gostar de mim.

No início, antes da canoagem, começaste aos 4 anos na natação. Lembras-te dessa altura, em que a escolha foi dos teus pais e não tua? Sentias-te já “como peixe na água”?

Sim, na altura gostava já da natação, até porque tinha lá alguns amigos e era uma forma de eu praticar desporto. É muito mais por aí, do que propriamente pelo desejo de vir depois a competir. Claro que nessa idade foi por decisão dos meus pais, até por indicação médica. Mais tarde, nos últimos anos em que estava lá, é que já tinha noção se queria ou não.

E que tal? Sentes que se continuasses, já que começaste bem cedo, poderias vir a ser um Michael Phelps?

Não! Não, porque não era uma modalidade que me atraísse como a canoagem. E não variávamos muito o tipo de treino, sempre dentro da piscina. Enquanto na canoagem há muito trabalho fora do rio e permite um know-how maior. As pessoas estranham quando me veem a fazer treinos de bicicleta e de corrida, a ritmos bons. Apesar de não ser a minha especialização, faz parte. Faço-o com regularidade e ajuda-me em tudo o resto, na produtividade e no facto de a cabeça estar mais liberta e focada.

Começaste com 12 anos na canoagem mas, curiosamente, como ocupação do tempo livre de verão nesse ano. Dá a sensação que foi algo casual, confirmas?

Exato. Não esperava por tudo o que viria a acontecer posteriormente. De facto, quando entrei foi mesmo com essa finalidade de ocupar o tempo que se tem nas férias grandes escolares. Depois, acabei por ser convidado pelo meu atual treinador a ficar na equipa da competição. A partir daí é que fui desenvolvendo.

Mas esse convite deu-se por o treinador reconhecer, nessa altura, que já tinhas talento?

Sim, é o que ele diz: eu nunca desistia de subir para cima do caiaque, quando caía, com o desejo de continuar. Tinha essa garra e vontade de querer sempre mais um bocado.

Aliás, faz este ano 20 anos em que começaste na modalidade. Desses, em 17 consecutivos já conquistaste mais de 170 medalhas! Para ti já é algo indiferente?

Depende. São 108 internacionais e tenho 57 títulos de campeão nacional, mais algumas de prata e bronze. São, sem dúvida, já algumas medalhas, mas por detrás delas há sempre uma nostalgia. É sempre bom alcançar ótimos resultados nacionais e internacionais. Eu e o meu treinador damos mais primazia a estes segundos, porque são os que contam mais no palmarés e para o meu currículo. Cada conquista é sempre importante e é sempre bom valorizá-la.

Até por cada conquista tem uma história diferente. Mas vitória é vitória: celebras sempre da mesma maneira?

Não celebro sempre da mesma maneira. Já que há medalhas que têm um sabor especial por aparecerem em momentos em que acreditávamos menos, ou porque não estávamos tão bem fisicamente ou numa altura positiva da nossa carreira, parecendo não estar a acontecer como queríamos e para a qual trabalhámos. E depois vence-se e dizemos: bem, afinal, valeu a pensa todo este esforço e todo este trabalho. E continuamos focados para conquistar mais. Depois, há aquelas medalhas que não são bem uma certeza, mas uma probabilidade maior de as poder conquistar: aí já não nos apanha tão desprevenidos, mas sabem bem na mesma. Contudo, as que sabem melhor resultam duma fase inesperada.

E há alguma história mais caricata e interessante de que te recordes e que nunca tenhas contado, nessas tuas conquistas?

Não, até porque já vai havendo uma rotina. Por exemplo, nas provas de 5000 metros existem sempre não peripécias – porque não são coisas engraçadas – mas acidentes de percurso. E, nesse momento, precisamos de nos reencontrar, restabelecer a mente naquilo que queremos e voltar à competição. Até porque, mesmo sendo 5000 metros, é uma prova bastante rápida, de 20 minutos. Há que saber gerir muito bem as emoções e o esforço físico. Recordo-me dum episódio, numa maratona que fiz: um atleta arredou-me do título agarrando-me, num dos momentos em que tínhamos de sair do caiaque e correr com ele na mão. Faltavam 1500 metros para a meta. Fez ali uma jogada que ninguém percebeu o porquê. Acabámos por ser nós os dois prejudicados e os outros dois que se seguiam fugiram-nos e passaram à frente. Eu fiquei em 3.º lugar e ele em 4.º. Mas senti que perdi ali um título mundial.

Ainda quanto às medalhas, como te posicionas – neste tempo que falta – para conquistar mesmo a única que te falta, o ouro olímpico?

O que tiver de acontecer irá acontecer. Tenho de enfrentar com tranquilidade e o melhor possível. Esperar que não apareça nenhuma lesão e que continue com os apoios que tenho. São sempre aspetos muito importantes, não só em termos físicos mas também mentais. Espero, como é óbvio, em «Paris 2024» estar na luta por uma medalha de ouro.

Normalmente já dás tudo nas provas, mas como é algo que queres ainda mais, mesmo muito, como pensas fazer ainda melhor do que já fazes?

Esse pensamento é algo que deve ser feito com o meu treinador. É ele que traça a estratégia e que planeia a época. Para já, o objetivo é retomar os treinos. Claro que a longo prazo o objetivo são os Jogos Olímpicos, sem dúvida, mas até lá há muito, muito e muito que treinar. Muito mesmo! Por isso, tem de ser passo a passo, época a época, e competição a competição, trabalhando o melhor possível.

E como é, como funciona, a rotina diária dos teus treinos?

Depende um pouco da fase de treino. Normalmente, tenho sempre um treino de água da parte da manhã. Depois, um treino de cárdio ou de ginásio. Já à tarde, repete-se ou um ou outro, depende um bocado de ano para ano, de dia para dia consoante a época. Mas basicamente treinamos de duas a quatro vezes por dia.

Quando venceste a prata olímpica, em 2012, foi em K2, com o Emanuel Silva. Dado o sucesso alcançado por que não voltaram a competir juntos?

Na verdade, eu nunca escondi a vontade em competir em termos individuais. É como falarmos do Usain Bolt a correr só estafetas, não faria sentido. Ou dizermos ao Phelps o mesmo, ele provavelmente não nadaria. Ou, mais recentemente, dizeres à Simone Biles que só iria competir em equipa, ela certamente não quereria. O mesmo se sucede no meu caso: já que era o melhor nacional, e ainda sou, de poder competir individualmente. Também gosto de me pôr à prova nesta categoria e sinto-me feliz. Embora aprecie, igualmente, fazer provas coletivas. Mas foi uma opção da Federação eu passar a fazer K1 e K4. Acho que, nestes casos, foram apostas ganhas.

De que modo distingues e relacionas – em termos de exigência, esforço e técnica – essas categorias de K1, K2 e K4? É mais fácil sozinho?

Não é uma questão de ser mais fácil ou mais difícil. Todas essas provas têm as suas especificidades. Em termos individuais é ponto assente que se estivermos bem tem tudo para correr bem: dependemos única e exclusivamente do nosso esforço. No K4, por exemplo, podemos compensar num dia a fraqueza de um dos atletas ou, num momento menos bom, podemos apoiar-nos uns aos outros. O K2 é igual, em que aí dependem um do outro. Em qualquer uma, o que é preciso é manter o mesmo espírito e a mesma vontade.

Podemos dizer que 2021, que ainda decorre, foi o teu melhor ano? Tiveste uma medalha olímpica, foste novamente campeão mundial, foste pai pela 1.ª vez e ficaste noivo…

Sim, é um dos meus melhores anos. E acho que isso também é fruto de nós querermos e fazermos com que os anos também sejam bons. Já 2020, para mim, foi muito bom, apesar de tudo isto que passámos com a pandemia. Sem dúvida que está nas nossas mãos se o ano vai ser bom ou mau. Se deixa de estar, temos de procurar uma forma para que as coisas dependam de nós.

Ao falares no ano 2020, alterou muito o teu trabalho? Conseguiste dar a volta? Até porque não deixou de ser muito bom para ti…

Não vou dizer que não. Mas alterou muito, por ter sido complicado e difícil. Ainda mais com o adiamento dos Jogos Olímpicos e a respetiva incerteza prévia de se realizarem ou não. Já estava muito trabalho feito para trás para eles serem em 2020 e eu estava na máxima força. Até porque, quando houve a competição internacional o ano passado, eu consegui vencer a distância olímpica. Acreditamos sempre.

Mas enquanto para outros atletas foi possível praticar em casa, quando confinados, tu não…

Consegui, na mesma, superar essa questão do teletrabalho, porque no meu caso é uma modalidade individual de outdoor e tínhamos uma permissão diferente, com o estatuto de alta competição em preparação para as Olimpíadas, para continuarmos a exercer o nosso trabalho. A nossa profissão é impossível ser feita em teletrabalho, não temos o rio em casa. E se estivermos 2 a 3 semanas sem treinar, perde-se completamente a forma física. Por isso mesmo, tínhamos de trabalhar da melhor maneira que podíamos e de forma a minimizar as perdas.

Entretanto, a meio da tua carreira enfrentaste o dilema dos estudos académicos, que interrompeste em Fisioterapia. Desejas concluir, um dia, esse objetivo?

Sem dúvida que é algo que desejo cumprir, quando o meu rendimento e a minha performance de carreira desportiva começarem a baixar. Quero ter a minha formação, que faz parte do processo de aprendizagem e de evolução. Depois da Fisioterapia ainda estive em Reabilitação Psicomotora, aqui em Ponte de Lima. Mas, desde esse momento, a opção e decisão foi a canoagem a tempo inteiro. Quando terminar a carreira, pretendo seguir um curso de Desporto, ou ligado ao treino ou à gestão desportiva.

Já foste feliz na região vizinha à tua, no Douro?

Sim, já fui bastante feliz, tanto na área da região em si, como no próprio rio, precisamente. Os meus primeiros estágios em 2009, com o meu treinador, foram em Cinfães. Ao longo do Douro, tive também a experiência de poder descer num barco turístico e desfrutar das paisagens e da sua gastronomia. No rio, mas fora do Alto Douro, consegui ser vice-campeão do mundo no meu primeiro ano, como sub-23, em Crestuma. Depois, em Melres / Gondomar, fui várias vezes campeão nacional e vencedor de taças de Portugal.

E há algo que gostasses de fazer – de novo ou de repetir –, tendo o Douro como cenário?

Sinceramente, tenho visto que no Douro se fazem as vindimas dos famosos vinhos e, depois, as visitas às quintas e caves. Gostaria de fazê-lo, pois é sempre enriquecedor e bonito experimentar esses momentos.

Sendo tu natural duma terra de vinho Verde és apreciador de vinhos do Douro e do Porto?

Como é óbvio não sou aquele consumidor mais ativo, porque não tenho por hábito as bebidas alcoólicas devido à minha profissão e à minha dieta. Esporadicamente, numa festa ou outra, bebo um pouco com a família e os amigos: um copo de vinho cai sempre bem. Já começo a distinguir um bom vinho de um vinho menos bom.

O que é que todo este teu percurso profissional te tem ensinado para a vida?

Sem dúvida que são os valores que a minha família me foi passando, como já referi. É muito por aí. A parte de deixar um bom legado, de ser socialmente responsável e cumpridor dos meus deveres.

E nesse teu legado, preocupa-te o estado em que está o desporto nacional? E o que farias para termos maior representação, e em mais modalidades, nas Olimpíadas?

É certo que aumentando os apelos e os incentivos para a prática desportiva, a começar pelas escolas, poderia resultar. E também nas atividades extracurriculares, que não são só desportivas mas culturais. Tem de se criar, como é suposto, medidas de apoio e estímulo para que os novos talentos não acabem por desistir por falta das mesmas.

Quais os melhores exemplos de apoio sustentado que viste noutros países e que podia aplicar-se cá?

Vejo, por exemplo, no Japão: os alunos têm Educação Física nos cinco dias semanais. Já experimentaram reduzir, mas não conseguiram, porque eles baixavam a sua produtividade. Às vezes isto é um estigma por se pensar que ao termos muita atividade física ficamos muito desgastados. Não sendo de grande intensidade, é possível, e permitindo aos alunos que passem por modalidades diferentes. Outro exemplo é da Polónia: os alunos têm os seus treinos antes de iniciarem a escola, que começa tipo pelas 10h. É uma questão de envolver as instituições desportivas com as escolas.

Vemos que os Governos pouco fazem nesse sentido. E como não devemos estar sempre pendentes e dependentes deles, quem poderia ajudar nesse sentido?

Eu, no meu caso, tive a sorte de poder ser “paitrocinado”, mas nem todos os atletas têm pais com condições de ajudar financeiramente as suas carreiras. Não duvido que as grandes marcas e empresas, sobretudo nacionais, tinham tudo a ganhar em estarem associadas a grandes nomes do nosso Desporto. Para além do mais, tem de haver o incentivo do próprio Governo, para se sentir que o trabalho dos atletas que representam o país também é compensado. Hoje em dia dependemos muito do financiamento público e é bastante pouco para as modalidades que nós temos. Há um orçamento muito pequeno para a canoagem e foi o Comité Olímpico a dar também uma ajuda, mas pouco pode fazer por ter um reduzido poder financeiro.

Apontando a um tema atual, fraturante e polémico, como vês o aumento excessivo e sucessivo do preço dos combustíveis e seus riscos? Onde isto vai parar?

Isto vai levar a uma falência de muitas famílias. Muitos de nós dependemos muito do carro para nos deslocarmos para os nossos empregos e, com o ordenado mínimo, torna-se muito difícil. Isto pode levar ao aumento da criminalidade. É preciso repensar em algumas medidas, pô-las todas em cima da balança e ver que há imensos portugueses a irem às fronteiras de Espanha para atestarem o depósito. E assim não favorecem a nossa economia. Mas, como é óbvio, estão no seu direito, porque falamos duma grande discrepância de preços! E as pessoas precisam de dinheiro para sobreviver, para continuar o seu dia a dia. Mesmo nos aviões: aumentando o petróleo as tarifas são agravadas. É algo que o Estado deve gerir e discutir com os parceiros sociais, dentro e fora do Governo. Há que chegar a um acordo, de modo a ajudar os Portugueses!

Além desta questão e olhando à volta, que outra realidade te preocupa bastante?

Incomoda-me a parte da empatia que devíamos ter para com o outro e que, tantas vezes, não temos. Devemos olhar para o outro e tentar percebê-lo, perceber a sua situação, e não fazer um falso juízo, às vezes baseado num comentário menos feliz ou em algo que nos contaram e que não é bem assim… Não podemos procurar só os defeitos dos outros, mas corrigir os nossos próprios para podermos ajudar os que, à nossa volta, precisam. Há que focarmo-nos em nos colocarmos no lugar do outro.

Já deixaste aqui um repto importantíssimo, que costumo solicitar ao terminar a entrevista. Há outro ainda que possas deixar?

Concluo dizendo a todos que tenham objetivos e que trabalhem por eles. Que deem o seu melhor no quotidiano e, certamente, as coisas darão os seus frutos. É basicamente isso!