José Maria Costa: “A maior dificuldade tem sido lidar com a situação difícil a nível financeiro”

Natural de Murça, José Maria Costa é o presidente do concelho desde 2013. Em entrevista ao VivaDouro, o autarca conta como têm sido os últimos anos à frente do município, salientando que “em dois anos fizemos uma redução na dívida na ordem dos dois milhões e quatrocentos mil euros”.

José Maria Costa, presidente da Câmara Municipal de Murça

José Maria Costa, presidente da Câmara Municipal de Murça

Quem é o presidente José Maria da Costa?

Sou presidente há dois anos na Câmara Municipal de Murça e tenho vindo a desempenhar funções autárquicas desde 2002. Acompanhei os três mandatos do presidente anterior como vereador, tendo assumido a função de vice-presidente em 2008, na qual me mantive até 2013. A minha formação profissional é professor do primeiro ciclo, tenho um curso de estudos superiores em Educação Especial e em 2007 conclui o mestrado em Ciências da Educação.

Porque se decidiu candidatar a presidente da Câmara Municipal?

Eu nunca tinha participado numa campanha eleitoral até outubro de 2001, na altura integrei o projeto por acreditar na equipa e, como os desafios estavam interessantes, continuei ao lado do executivo municipal. Em 2013 o ex-presidente cessou os mandatos e eu, tendo sido vereador e vice-presidente, só tinha duas alternativas: ou me ia embora ou abraçava o projeto. Foi assim que decidi concorrer à presidência. Também apoiado por colaboradores, por pessoas amigas e mesmo pela componente política, decidi aceitar o desafio porque entendi que o meu percurso político merecia esta experiência e também entendi que era capaz de vir a fazer um bom desempenho, que o concelho de Murça nada ficaria a perder com a minha presença enquanto presidente de Câmara.

Qual a maior dificuldade que encontrou como presidente?

A maior dificuldade, e isto é um pouco transversal a todas as autarquias, são as limitações financeiras. É verdade que não temos promessas com as pessoas, mas não nos tem sido possível fazer muito, é o que é possível, portanto a maior dificuldade é lidar com a situação difícil a nível financeiro, tentar dar alguma estabilidade ao município e, ao mesmo tempo, manter a qualidade de vida das pessoas.

E a maior vitória que conseguiu até agora?

Ainda é difícil fazer essa interpretação. Mas em termos de investimento, uma grande vitória foi conseguirmos ultrapassar a situação que havia no antigo estádio de futebol de Murça, negociamos a situação com a entidade credora e libertámos aquele espaço para poder vir a fazer-se a ampliação do cemitério municipal, para mim isso foi uma vitória. Dia-a-dia vamos conseguindo outras vitórias. No fundo o que procuramos é, nas pequenas vitórias e nas pequenas concretizações, fazermos uma grande vitória para as pessoas.

A crise financeira afeta grande parta das autarquias do país. Qual o impacto desta crise em Murça?

Murça teve uma grande derrota, que foi o encerramento do serviço do Tribunal. Este fecho foi de uma brutalidade, não tenho outra expressão para o dizer, e de uma afronta tremenda ao município de Murça, como foi para os outros municípios também. Os serviços foram deslocalizados para outros tribunais que não estão a dar uma melhor resposta aos cidadãos, falava-se muito na questão da especialização de serviços, não é notória essa situação, para além disso foram instalados em condições degradantes, que não são dignas dos utentes nem das pessoas que lá desenvolvem as suas atividades. É o caso das pessoas de Murça, foram deslocalizadas para o Tribunal de Alijó, que não tem as mínimas condições, para além disso fomos também para Vila Real e Chaves, ficando uma população dispersa pelo território, tendo uma dificuldade grande de aceder a esses serviços.

A desertificação é um dos principais problemas do Interior. De que maneira Murça combate esta dificuldade?

A perda de população é um problema que nos afeta a todos e no território da CIM Douro, tirando as três principais cidades, estamos todos com uma perda de população acentuada. Por um lado isso deve-se ao envelhecimento da população, por outro lado à falta de gente jovem para iniciar o ciclo de instalação e reprodução aqui no concelho e na região. Murça foi, dos pequenos concelhos, aquele que menos população perdeu. Na minha opinião, tem muito a ver com a nossa proximidade ao Douro, o facto de termos aqui algum território que pertence à região Demarcada do Douro tem outro potencial que outros concelhos não têm.

Temos algumas medidas, nomeadamente em estágios para os mais jovens, dentro daquilo que nos é possível fazer, mas temos que ser realistas, os jovens têm que ter em conta que os estágios são importantes mas é necessário perceber que um estágio não é uma medida definitiva de emprego de vida, não significa que uma pequena percentagem não o seja, mas para a grande percentagem dos jovens acaba por não ser uma solução de vida. Naquilo que a autarquia ajudamos, principalmente na criação de algumas condições para que entidades privadas vão construindo a sua própria atividade e consequentemente postos de trabalho no concelho. Atualmente fala-se muito em empreendedorismo, que os jovens se transformem em empreendedores ativos, e é isso que nós esperamos que venha também acontecer no nosso território, aliás até porque Murça tem uma posição geográfica bastante facilitadora e potenciadora desse tipo de atividade, reunindo as condições necessárias para que as pessoas se sintam bem e possam estabilizar a sua vida aqui.

Quais os futuros investimentos do concelho?

Vamos brevemente iniciar as obras, esperamos que ainda este ano, da ampliação da zona industrial, que nos vai permitir albergar, para já, cerca de nove empresários. Já assinámos escrituras com alguns deles e, vamos prosseguir com a instalação das infraestruturas necessárias, preparando o terreno para que as pessoas se possam acomodar. O facto de fazermos parte dos municípios do empreendimento hidroelétrico do Foz Tua, irá trazer muito mais valia para Murça e, num futuro próximo, para que os proprietários venham a conseguir tirar rendimento desse empreendimento, tanto na área do turismo como do lazer, o concelho de Murça terá que sofrer algumas alterações, que irão demorar algum tempo mas vão-se transformar numa mais-valia. Estamos também a tentar dar alguma consistência no espaço agrícola e florestal, esperamos que com as novas medidas do novo quadro comunitário e com alguns parceiros locais, consigamos ter aí alguma capacidade de renovação do setor.

Símbolo do concelho, a Porca de Murça

Símbolo do concelho, a Porca de Murça

Qual a razão para a Porca de Murça ser o símbolo do município?

A Porca de Murça tem duas componentes, a lenda que é algo que o povo cria e que se vai transmitindo, apesar de não ser real e a porca que é um porco de cobrição, aqui representada numa estátua de granito simbolizando um barrasco, utilizado por algumas civilizações que associavam o berrão à fertilidade. Essas civilizações dependiam da agricultura e da pastorícia, portanto quanto mais abundancia houvesse, mais ricas as pessoas eram, precisavam por isso que os seus animais e os seus campos fossem férteis, daí a adoração por este elemento. Ao longo dos tempos a população de Murça foi-se identificando coma Porca de Murça, que sempre esteve muito associada, muito ligada às pessoas. Antigamente a Porca era pintada de acordo com o poder dominante, por isso tem algumas mutilações no seu corpo, resultante da necessidade de picar a pedra para limpar a Porca. Em termos de afetividade os murcenses identificam-se com a Porca de Murça e é esse o nome que nós usamos, com todo o carinho e orgulho. Gente de Murça sabe que é gente da terra da porca. Respeitamos a porca e, a população de Murça, será extremamente desagradável para quem de fora cá vier e não a respeitar, é assim ao longo dos tempos e é assim que continuará. É a porca de murça com toda a sua dignidade e esplendor que está naquele pedestal e nós fazemos disso o nosso símbolo e é a nossa imagem de marca, a nossa identidade.

Que balanço faz destes dois anos de mandato?

O balanço destes dois anos de trabalho é um balanço positivo, dentro das dificuldades e limitações financeiras que temos, temo-las identificadas e temos que saber viver com elas. Fizemos aquilo que nos foi possível, estabelecendo objetivos prioritários, continuamos com as nossas obrigações, não corremos riscos desnecessários, o concelho tem que perceber que só se faz aquilo que tem cabimento em termos de realização financeira, o resto ficará para outros momentos em que a Câmara tiver outra disponibilidade. Nestes dois anos fizemos uma redução na dívida na ordem dos dois milhões e quatrocentos mil euros, portanto é um processo que continua anualmente e continuará até que o pagamento esteja completo. Entramos nos limites legais do endividamento da Câmara, ficando esta liberta de determinadas obrigações ou limitações que lhe eram impostas pela legislação vigente, mas até este momento fazemos uma avaliação muito positiva.

Pretende recandidatar-se em 2017?

A política é uma vida efémera. Hoje temos uma realidade e amanhã temos outra. Temos que ser honestos com os nossos parceiros, com a população e connosco próprios. Temos que sentir que estamos à vontade, que estamos bem e que nos sentimos bem na função que ocupamos. Temos que estar disponíveis para ser, mas também temos que estar disponíveis, por ventura, para não ser. Ainda nos faltam dois anos de mandato, neste momento estamos a trabalhar a quatro anos, preparando o futuro para mais, temos que pensar sempre mais além, é esse o nosso pensamento. Posso dizer que neste momento a nossa intenção é continuar na gestão da autarquia de Murça.

Para terminar, quer deixar uma mensagem para a população?

A mensagem que posso deixar neste momento, para a população de Murça, é que continue a acreditar neste executivo municipal, que continue a acreditar nas suas juntas de freguesia porque todos trabalhamos com um único objetivo, que é servir sempre e melhor a população. Fazemos no dia-a-dia, com os meios que temos, o melhor que pudemos. Acredito plenamente no futuro do concelho de Murça, porque também acredito nas pessoas do nosso concelho. Para o Douro deixo a mensagem de que gostava de sentir que o Douro é uma grande família, uma grande família diversificada e dispersa em todo este território, mas que tem um elo em comum, que é o próprio Douro e que diariamente nós saibamos preservá-lo e retirar dele todo o potencial que tem, em benefício deste conjunto de municípios que o ladeiam, quer a norte quer a sul.

 

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