Máscaras são as rainhas no Entrudo mais típico do Douro

Adão Almeida, o artesão mais antigo das máscaras de Lazarim

Adão Almeida, o artesão mais antigo das máscaras de Lazarim

O Entrudo é a época mágica na pequena aldeia de Lazarim, em Lamego. As tradicionais máscaras esculpidas em madeira de amieiro, que no dia de entrudo andam à solta pelas ruelas da vila são o principal foco de atenção para os visitantes. Entre 6 a 9 de fevereiro, diabos, demónios, caretos e senhorinhas animaram as ruas da freguesia, cujo carnaval integra o roteiro da cultura tradicional da região do Douro.

Caretos e senhorinhas são as personagens principais no entrudo lazarinense. Ao longo deste dia, as figuras de diabos chifrudos ou demónios assustadores confundem-se no meio da população que visita o certame. Um espetáculo improvisado, onde as máscaras são as rainhas do carnaval, uma arte despida de preconceitos e simples, como quem as esculpiu, deixando no ar carnavalesco da vila os sonhos e pesadelos de quem por ali passa.

Adão Almeida, 53 anos, é o artesão mais velho em Lazarim. Em conversa ao VivaDouro, o artesão relembrou como surgiu a paixão pelas máscaras tão típicas da vila. “Interessei-me por esta atividade em miúdo. Um dia, um colega meu levou uma máscara muito antiga, que um tio lhe tinha emprestado e eu gostei tanto que lhe disse que iria fazer uma igual”, contou, acrescentando que nesse mesmo dia chegou a casa e com as ferramentas do pai e uma faca de cozinha da mãe “nasceu a minha primeira máscara, foi sem dúvida, um sentimento muito especial”.

“A partir daí comecei a ter gosto na arte e comecei a fabricar todos os anos cerca de três máscaras para mim e para os amigos que me pediam”, afirmou o lamecense, contando que atualmente faz cerca de 13 máscaras de carnaval por ano.

Fabrico de uma máscara lazarinense em madeira de amieiro

Fabrico de uma máscara lazarinense em madeira de amieiro

De acordo com Adérito Vaz, presidente da junta de freguesia de Lazarim, este ano passaram cerca de dez mil pessoas, nos quatro dias em que se realizou o certame, o autarca afirmou, “é muito importante porque traz muita gente, quer a nível nacional, europeu e também de toda a parte do mundo”, salientando que é o evento da freguesia que mais visitantes traz.

“Os espanhóis são aqueles que nos visitam mais”, revelou Adérito Vaz, frisando que atualmente são visitados em maior número por espanhóis do que portugueses, “é algo que mexe com eles, vivem mais o carnaval que nós e como o nosso também é muito forte e típico, eles vêm sempre em grande massa”, declarou. Fora da Península Ibérica, os ingleses são aqueles que mais têm visitado a vila neste mês.

Todo o processo de realização da máscara de Lazarim é manual, a base é a madeira de amieiro, “muito versátil e fácil de lidar”, sublinhou Adão Almeida, frisando que durante todo o fabrico, “as minhas mãos e o meu pensamento é que me guiam para aquilo que vou fazer”. As principais ferramentas de trabalho para o artesão são o enxó, formões e as goivas, mas confessa que a “arma final é sempre a faca”, pois é com ela que faz os cabelos, acerta os olhos e os lábios e afina todos os pormenores finais.

A máscara mais simples feita pelas mãos de Adão Almeida demora entre a 3 a 5 dias até estar completamente pronta, já uma peça mais trabalhada pode demorar cerca de 13 dias. Em relação ao valor do seu trabalho, o lamecense afirma que “o preço de uma máscara depende do trabalho e do tempo que lhe dedico, uma peça simples custa cerca de 200 euros e a mais cara que vendi tem o valor de 620 euros”, revelou.

Dois dos caretos expostos no CIMI

Dois dos caretos expostos no CIMI

Para o artesão, o entrudo da vila é o ponto mais alto do ano, “se Lazarim não tivesse o nosso entrudo, ninguém teria interesse em nos visitar”, confessou, defendendo que o carnaval da freguesia é “muito bom, como não vejo igual. É o nosso carnaval, é da minha terra e por isso tem tudo”.

Este ano o Entrudo de Lazarim foi orçamentado em cerca de treze mil euros, “um pouco mais baixo do que em anos anteriores, porque não há dinheiro e tivemos que abdicar de certas coisas”, afirmou Adérito Vaz. A cobertura do polidesportivo caso viesse a chover e um lanche que costumavam realizar para todas as pessoas, foram dois dos principais cortes na festa de carnaval.

Nas palavras do presidente da junta de freguesia, o balanço dos quatro dias de entrudo foi “muito positivo, a chuva estragou um pouco o dia mais alto do carnaval, tivemos que alterar o percurso que tínhamos, mas mesmo assim as pessoas continuaram sempre até ao fim”, frisou.

Quem passa por Lazarim nesta altura do ano, garante que é um dos mais genuínos carnavais do país, máscaras carrancudas de madeira, esculpidas por artesãos da vila, são nesta época festiva utilizadas por jovens de ambos os sexos, os denominados caretos e as senhorinhas.

“O entrudo não é só para Lazarim porque, por exemplo, a rede hoteleira do concelho ganha muito com a nossa iniciativa. As pessoas vêm e nota-se que recebemos muitas chamadas a pedir-nos indicações para restaurantes e para pernoitar, nota-se uma afluência muito maior”, confessou Adérito Vaz, revelando que os hotéis da cidade admitem que há uma maior procura nesses dias. O autarca frisou que “o importante é estarmos todos articulados para que isto seja um bom investimento, tanto para o Douro Sul como para toda a região”.

Em relação ao futuro, Adão Almeida acredita que os diabos, os caretos e as senhorinhas continuarão a invadir a vila de Lazarim nos dias do certame, “há muitos jovens que já se interessam pelas nossas máscaras”, sublinhando que já existem pelo menos cinco jovens na vila que mostram interesse e talento para a arte.

“Não há ninguém que não viva o Carnaval em Lazarim, é muito profundo. É das festas mais importantes que temos no concelho, é único”, concluiu Adérito Vaz, elogiando “o empenho, a dinâmica e o carinho dos habitantes da vila pois, sem eles, não havia carnaval, nem sequer fazia sentido”.

 

Inauguração do Centro Interpretativo das Máscaras Ibéricas

Inauguração do CIMI | Foto: Direitos Reservados

Inauguração do CIMI | Foto: Direitos Reservados

Foi inaugurado no fim do mês de janeiro o Centro Interpretativo das Máscaras Ibéricas (CIMI), em Lazarim. A nova infraestrutura é o primeiro espaço ligado ao ritual da máscara a surgir na Península Ibérica, gerando novas dinâmicas culturais e educativas.

De acordo com Adérito Vaz, o espaço orçamentado em cerca de um milhão e duzentos mil euros, financiado em 85 % pelo ON.2-O Novo Norte, permitirá ao jovens e artesãos realizar as suas máscaras numa zona própria para eles, onde podem trabalhar a arte, sendo ao mesmo tempo um espaço muito “atrativo e acolhedor”. Para Adão Almeida, o CIMI é um ponto forte a favor dos artesãos, principalmente para venda, “podemos expor aqui e é mais fácil os visitantes chegarem até nós”, explicou.

“A criação do CIMI é muito importante, pois pensámos que isto é uma forma de trazer mais pessoas à vila e acreditamos que possa até incentivar os mais jovens a ficar aqui”, sublinhou o presidente da junta de freguesia, revelando que irão tentar criar cerca de quatro postos de trabalho no CIMI, “o que não será fácil mas estamos a fazer tudo que podemos para dinamizar cada vez mais a freguesia”.

O autarca de Lazarim contou ao VivaDouro que, juntamente com a Aldeia da Anta, estão a pensar fazer uma rota turística, para que o CIMI seja um ponto de passagem obrigatório. “Estamos a tentar que a Câmara Municipal nos ajude a compor o caminho, acho que isso nos ia ajudar imenso, porque a Anta é um local muito procurado”, concluiu o autarca.

O novo Centro Interpretativo da Máscara Ibérica terá uma área de exposição dedicada ao Entrudo de Lazarim, um espaço para acolher exposições e salas que vão apresentar os rituais da máscara ibérica. Irá também ser apresentado o programa cultural para o primeiro semestre do ano, do qual vão fazer parte jornadas culturais, oficinas da máscara, debates e outras dinâmicas culturais e educativas.

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