O Alto Douro Vinhateiro – 20 anos depois da inscrição

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Passaram 20 anos sobre a inscrição do ADV na lista do Património Mundial. A paisagem do Douro, cujo valor excepcional e universal foi consagrado, assumiu este reconhecimento como uma oportunidade para se desvendar ao Mundo. Os seus recursos culturais – os naturais e os que resultaram da acção persistente do homem – potenciaram o valor económico e social da região. Houve desenvolvimento do turismo, do enoturismo, exploração da via navegável. Os seus vinhos e a sua gastronomia valorizaram-se.

Todavia, quanto ao balanço na vitivinicultura há sinais contraditórios. Houve investimento e aumento da área de vinha. A denominação Douro ganhou expressão e qualidade. Mas, a exportação diminuiu em volume, embora em valor tenha havido constância. Por outro lado, todos apontam como factor de muita apreensão a dinâmica demográfica recessiva, sentindo a necessidade de definir políticas que contrariem o actual défice de mão-de-obra, nomeadamente por recurso à imigração. É muto provável que a convergência de factores que contribuem para a formação dos preços, faça subir o valor médio na remuneração das uvas, já que tudo o resto tende a subir: energia, equipamentos, fitofármacos, adubos e, naturalmente, uma remuneração do trabalho mais justa.

Nestes 20 de anos, muito foi feito para preservar e valorizar o ADV. A administração e os agentes económicos, de uma maneira geral, foram comedidos e cuidaram da qualidade da paisagem. Podemos seguramente afirmar que o ADV não corre riscos de desclassificação, mas isso não nos deve desobrigar a manter uma atitude zelosa e vigilante. Seguem-se algumas ideias sobre o que podemos fazer neste sentido:

  • Insistir na necessidade de dotar o ADV de um Plano de Gestão com orientações estratégicas nos diferentes domínios de acção, investimento e governação, tal como a UNESCO reclama, clarificando o que cumpre a cada um fazer.
  • Analisar o que está adquirido, para outras paisagens culturais e que nos pode servir de orientação.
  • Dispor de regras distintas para a zona classificada, propriamente dita (território de 13 municípios, num total de 24.000 ha) e para a zona tampão (buffer zone, que coincide com a RDD).
  • Dado que a armação do terreno, em socalcos e muros, forma o principal atributo da paisagem cultural, é indispensável dispor de apoios específicos para a sua preservação. Estas ajudas devem estar previstas no plano de gestão, compensando os custos acrescidos da estruturação deste tipo de vinha.
  • Garantir que o mosaico desta paisagem, na sua diversidade, seja preservado.
  • Contrariar patamares em terrenos cuja inclinação seja superior a limites tecnicamente estabelecidos.
  • Desenvolver uma atitude de escrutínio continuado na opinião pública e nos agentes económicos que operam na região.
  • Finalmente, e porventura o mais importante, não desguarnecer o esforço por sensibilizar os jovens em idade escolar, para a importância de viverem num território de exceção: implicando os professores, preparando material didático específico, criando prémios escolares para retribuir trabalhos sobre o ADV, fomentar o debate sobre os temas do Douro.