O futuro das Caves Vale do Rodo passa por um apoio mais efetivo aos sócios

O VivaDouro esteve à conversa com António Lencastre, presidente da Adega Cooperativa das Caves Vale do Rodo, no Peso da Régua. Dirigente da cooperativa desde 2011, o engenheiro civil considera que o apoio ao sócio deve ser a relação de futuro dentro das cooperativas.  

Quais sãos os principais objetivos da Cooperativa?

A cooperativa foi criada com um motivo, evoluiu com um motivo e hoje o paradigma das cooperativas volta a estar novamente em causa. Na minha opinião as cooperativas devem-se voltar agora para os lavradores. Têm que conseguir que os lavradores tenham boas uvas e que as suas massas vínicas sejam ótimas para terem vinhos de qualidade. De facto esta região é muito difícil, com custos de produção altos e nós temos que fugir aquilo que tem acontecido ultimamente. Por isso a minha ideia, e é nesse caminho que estamos a evoluir desde há dois anos, temos tido uma estratégia um bocadinho diferente que é de especializar. Criámos uma empresa chamada Porto Reccua, é uma sociedade anónima, que ficará encarregue de todo o engarrafamento e de toda a venda e cabe à Cooperativa fazer graneis de qualidade e para isso é importante que a cooperativa se volte quase única e exclusivamente para o acompanhamento de cada viticultor. Apoiá-lo de tal maneira que consiga que a vinha pequenina também tenha uvas que sejam ótimas e é isso que é no fundo o objetivo hoje.

Quais são as principais vantagens que os produtores encontram ao trabalharem com as cooperativas?

No fundo uma cooperativa devia ser um conjunto de pessoas que se entreajudam.

Porque é que diz que “devia ser”? Na sua opinião não são?

Devia ser porque ainda falta um bocadinho. A cooperativa no meu ponto de vista devia ser um agrupamento de gente que se entreajuda e se agarra no mesmo negócio. Normalmente os associados veem as cooperativas como se fosse uma empresa, como se fosse deles. Nos tempos difíceis andam todos agarrados à cooperativa porque não têm onde pôr as uvas, nos tempos fáceis largam a cooperativa. No fundo as cooperativas, na sua maioria, endividaram-se de tal maneira que hoje o grande sacrifício é pagar os juros, os serviços e a amortização da dívida, só depois é que vem o pagamento aos sócios. Daí que me pareça que tem que haver uma grande revolução neste setor cooperativo porque se por um lado se entende que as cooperativas são a solução para 80% dos lavradores do Douro, por outro lado também acho que elas devem alterar os seus procedimentos de maneira a conseguir cativá-los e a valorizar as suas uvas, porque se assim não acontecer não vale a pena.

Como é que tem sido a evolução do número de sócios ao longo dos anos?

O primeiro conjunto de sócios suponho que era na ordem dos 50, com a fusão já chegamos a 1300 e hoje em dia temos cerca de 750. Houve uma perda de sócios depois da fusão. As fusões são feitas para otimizar mas há fusões que não otimizaram tanto quanto era preciso. A fusão criou guerras internas e ficámos na situação em que estamos, isso aconteceu fundamentalmente em 2007, em que houve uma debandada de sócios grande. Quando os sócios debandam as dívidas ficam a dividir por menos e quando são menos a pagar a vida fica mais difícil. É um ciclo vicioso que nós andamos a tentar reverter. Quando cheguei aqui tinha perto de dois milhões de dívidas, sem crédito na banca. Hoje em dia felizmente a nossa dívida já dá para gerir mas ainda dói.

Para além da dívida que outros problemas tem a cooperativa neste momento?

O envolvimento dos sócios. Eu considero que transformar uma cooperativa numa organização mais voltada para os sócios é um desafio até maior do que a dívida. É um trabalho difícil porque não depende só da vontade.

Neste momento já sente que tem essa boa relação com os associados?

Eu acho que é um caminho difícil. É uma alteração profunda que não se faz de um dia para o outro. É esse caminho que estamos a começar a percorrer. A garantia que haverá vinho no futuro e bom vinho é se nós conseguirmos cativar os nossos associados e envolvê-los no negócio. Fazer esse negócio simples para que quem venha a tomar conta da cooperativa não precise de ser nenhum intelectual nem um sofredor, basta ser uma pessoa simples.

Qual foi o valor da produção dos últimos três anos?

Andamos sempre à volta das cinco mil pipas. Em termos de valor devemos andar a faturar cerca de cinco milhões de euros por ano.

Sentiram alguma queda nas vendas nos últimos anos?

Há sempre anos melhores e anos piores. O ano passado foi nitidamente um ano bom. A colheita foi boa, enquanto a colheita de 2014 foi mais difícil, mais curta, por isso quando a colheita é mais curta as faturações baixam.

A cooperativa tem apostado na exportação?

A cooperativa tende a vender só granel mas o grupo já exporta mais de 50% do que produz.

Há perspetivas de crescimento tanto a nível nacional como internacional?

Temos de ver sempre dois vetores no crescimento, uma é crescer em volume, outra é crescer em preço. Nós temos as duas ambições. Nem uma nem outra são fáceis. Estamos a correr o caminho de valorizar mais os nossos vinhos, por outro lado, em termos de quantidade estamos a diversificar mercados.

Considera que Portugal se consegue distinguir de outros países da Europa neste setor?

Nós temos duas coisas completamente diferentes. Por um lado temos o vinho do Porto, por outro temos a vantagem que Portugal, apesar de pequeno, tem uma diversidade imensa de vinhos. Poucos países no mundo terão tantas castas em tão pouco espaço, mas isso leva-nos a outro problema, o país é pequeno e por isso não pode concorrer em volume com alguns países. O nosso campeonato tem de ser o vinho de excelência. Principalmente no Douro em que tudo é mais caro, tudo é mais difícil.

Na sua opinião qual é o principal entrave ao desenvolvimento das cooperativas em Portugal?

Eu acho que se tem perdido por diversas vezes oportunidade de fazer uma revisão consistente no código cooperativo. As cooperativas ligadas à vinha e o vinho têm de ser distinguidas de todas as outras cooperativas. Há evoluções que têm que ser feitas, tem que se rasgar um pouco com o passado e tornar as cooperativas atrativas para os associados e para o capital. As cooperativas têm de ser vistas como organizações que precisam de ser otimizadas, de ser bem geridas, mais acompanhadas.

O que é que esperam para o futuro da cooperativa?

Os nossos viticultores são gente envelhecida, com dificuldades e gostava que a cooperativa fosse dinamizadora de apoio para eles e os seus sucessores. Esse é o grande motivo de eu estar aqui, conseguir que esta instituição tenha um papel mais fácil do que tem hoje.

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