Barca d’Alva poderá ver o regresso do comboio em 2029

0
Barca d’Alva poderá ver o regresso do comboio em 2029

Os estudos de viabilidade económica, financeira, técnica e ambiental da reabertura da Linha do Douro, no troço entre o Pocinho e Barca d’ Alva, foram hoje apresentados em Freixo de Espada à Cinta, na presença dos ministros Pedro Nuno Santos e Ana Abrunhosa, obtendo em todos luz verde à intervenção.

Desde o encerramento do trajeto, de cerca de 28 quilómetros, que liga o Pocinho a Barca d’Alva, em 1988, têm sido muitas as reivindicações de populações e políticos para a sua reabertura, uma posição que parece agora ganhar um novo fôlego com a promessa do Ministro das Infraestruturas que irá mesmo avançar.

O estudo de viabilidade económica da reabilitação da Ligação Ferroviária Pocinho/Barca d’Alva, desenvolvido pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), e apresentado hoje em Freixo de Espada à Cinta, aponta para uma estimativa global de custos na ordem dos 75 milhões de euros, dos quais 60 milhões de euros serão destinados à obra de reabilitação, 3,5 milhões de euros para projetos e 11,2 milhões de euros para fiscalização e estaleiro.

O documento conclui ainda que “o projeto é rentável do ponto de vista económico, com os benefícios económicos, sociais e ambientais a superarem os custos”, pelo que, “recomenda a sua execução”.

No que diz respeito a fontes de financiamento o estudo aponta que devem ser consideradas possibilidades como o Orçamento de Estado ou o Programa Regional Norte 2030, que tem revista uma dotação orçamental de 92 milhões de euros para investimentos na ferrovia, nomeadamente nas linhas do Douro (troço Peso da Régua – Pocinho), do Vouga e estudos no Sousa.

Ainda sobre financiamento, o estudo aponta a possibilidade de financiar o troço Régua-Pocinho através de mecanismos nacionais e europeus associados ao Plano Ferroviário Nacional 2030 (PFN2030), deixando assim a dotação prevista no Programa Norte 2030 para o financiamento da ligação Pocinho – Barca d’Alva.

De acordo com o documento os benefícios totais do investimento “são de 84,2 milhões de euros”, gerando “importantes impactos”, em especial no setor do turismo que, logo em 2029 deveria representar 81,6% dos utilizadores, chegando aos 91,7% em 2059.

 “No total dos 26 anos de exploração do projeto, o valor acrescentado bruto (VAL) na fileira do turismo irá aumentar em 101,2 milhões de euros a preços constantes e serão criados mais de 4.700 postos de trabalho, sendo que as atividades económicas mais beneficiadas serão a hotelaria e a restauração”, salienta o estudo.

De acordo com o documento, o VAL do projeto “é de 42,5 milhões de euros e a taxa interna de rentabilidade económica (TIRE) é de 8,04%”.

Nas conclusões do estudo é ainda possível ver que a reabertura deste troço significaria a criação de 4724 novos postos de trabalho, tendo um impacto a rondar os 101M€ no PIB da região, contabilizando não só os quatro municípios diretamente servidos pelo troço (Figueira de Castelo Rodrigo, Vila Nova de Foz Côa, Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta), mas a todo o território do Douro.

À saída da apresentação, em declarações à imprensa os ministros reiteraram a sua satisfação com “mais este passo dado” num projeto que Ana Abrunhosa, Ministra da Coesão Territorial, considera “importantíssimo para o turismo, para a coesão territorial e para estimular as atividades económicas deste território”.

Pedro Nuno Santos, o ministro com a pasta das obras públicas, que na intervenção tinha já criticado o abandono da ferrovia que o país fez nas últimas décadas, sublinhou esse facto, comparando com o atual momento de crescimento neste setor.

“Temos muita gente a clamar reformas mas a reforma que fizeram durante décadas na ferrovia foi desinvestir na mesma e abandoná-la. Aquilo que hoje estamos a fazer é o contrário, hoje temos praticamente toda a nossa rede ferroviária em obra. Estamos noutro paradigma, estamos numa nova era.

As obras demoram tempo a fazer, há estudos de diversa ordem que precisam ser feitos, projetos, empreitada, etc. É difícil recuperar 40 anos de atraso na ferrovia em poucos anos mas é esse o trabalho que estamos a fazer”.

Barca d’Alva poderá ver o regresso do comboio em 2029O governante afirmou ainda que “a Linha do Douro tem um potencial único no Mundo que deve ser aproveitado em toda a sua plenitude, e por isso queremos que o comboio chegue até à fronteira”, sublinhando a preocupação do Governo em “tratar do nosso país e fazer aquilo que defende os portugueses”, deixando para “depois” as conversas com o lado espanhol com vista à ligação até Salamanca.

“Esse é um desfio em que temos que estar permanentemente envolvidos, conseguir justiça e respeito para todos. Por isso é que temos que fazer um esforço para dar resposta a reivindicações antigas da população.

O estudo foi fundamental mas mais fundamental ainda foi a força das populações, dos autarcas e da coesão territorial. O ministro entra também no comboio mas quem o pôs a andar foi a região, as pessoas e os autarcas”.

O Ministro deixou ainda a garantia que “no primeiro trimestre de 2023 será lançado o concurso para o projeto de reabertura do troço Pocinho – Barca d’Alva”.

Carlos Silva, presidente da CIM Douro, era também ele um homem “satisfeito” com o resultado do estudo. Para o também autarca de Sernancelhe, este passo é resultado do esforço conjunto feito pela região no estabelecimento de projetos estratégicos, e consequente reivindicação dos mesmos, a uma só voz.

“Há uns bons anos fizemos o exercício de perceber quais eram os projetos estratégicos para o nosso território e a Linha do Douro é um deles. Temos feito essa defesa, foi importante que a sociedade civil nos acompanhasse nessa reivindicação, criando a petição que foi aprovada por unanimidade na Assembleia da República, dando-nos ainda mais força.

Tem sido este o trabalho constante da Comissão de Trabalho que foi constituída para acompanhar este projeto, juntamente com a CCDR-N e a Infraestruturas de Portugal. Este é o primeiro resultado, o que esperamos agora é que seja concretizado, como disse na minha intervenção, eu gosto de concretizar e inaugurar, não lançamentos de primeiras pedras”.

Barca d’Alva poderá ver o regresso do comboio em 2029

Envolvidos na Comissão de trabalho dedicada à Linha do Douro, criada pela CIM Douro, estão os municípios de Peso da Régua e Vila Nova de Foz Côa.

Para José Manuel Gonçalves, autarca reguense, começa agora “a ver-se luz ao fundo do túnel”. O edil acredita que este projeto “não tem mais reversão”, até pela viabilidade económica que o estudo veio demonstrar.

“Contudo, as reivindicações que tínhamos iam a montante desta discussão porque mesmo que não existisse essa viabilidade, esta obra deveria avançar em nome da coesão territorial.  Olharmos para o país como um todo já era razão suficiente para avançar com este projeto.

Ainda bem que há agora uma nova realidade que dá mais força a este projeto. A região está unida e aqui fica a prova que não desistimos em prol do nosso território e das nossas gentes”, concluiu José Manuel Gonçalves.

Pedro Duarte, Vice-presidente do município de Foz Côa, sublinhou a importância económica do projeto para o seu município, em especial no setor do turismo.

“Tem uma importância fulcral para os próximos anos, não só pelo ponto de vista da mobilidade mas também pelo turismo. É em Vila Nova de Foz Côa (Pocinho), que existe o término da Linha do Douro atualmente, saber que a linha irá reabrir até Barca d’Alva, e possivelmente no futuro até Salamanca, é de uma importância vital para nós.

Temos dois patrimónios da Humanidade no nosso território, o Parque Arqueológico do Vale do Côa e o Alto Douro Vinhateiro, que ficarão muito mais próximos, por exemplo, de Salamanca, o que para nós muito importante, sobre tudo do ponto de vista turístico”.

Papel sublinhado por todos os intervenientes foi o da sociedade civil, representada pela Liga dos Amigos do Douro Património Mundial.

António Saraiva, presidente da organização, esteve também na apresentação destes estudos, no final, em declarações exclusivas ao VivaDouro, falou em “sentimento de vitória”, reivindicando ainda um outro olhar para os territórios do interior.

“O passo hoje aqui dado significa uma vitória de todo um trabalho começado há já 3 anos pelo meu antecessor António Filipe, juntamente com a Fundação do Museu do Douro.

Já sabíamos que este projeto era viável, como este estudo vem agora provar, contudo, mesmo que não fosse viável económica e financeiramente, ele deveria avançar. A execução deste projeto poderá ajudar a fixar pessoas e isso acabará por arrastar muitas outras.

Estamos habituados a ouvir falar do custo da insularidade, e o custo da interioridade? Não se deve olhar da mesma forma?

O estudo está aí e prova a viabilidade do projeto. Já há datas apontadas, com a exploração a dever iniciar em 2029, portanto, é um sucesso fantástico para nós, para o sociedade civil que é aquela que a Liga dos Amigos do Douro Património Mundial representa”.

Em 2020 foi entregue, no parlamento, uma petição com 13.500 assinaturas em defesa da reativação da linha até Barca d’Alva e ligação a Espanha, uma iniciativa promovida pela Liga dos Amigos do Douro Património Mundial (LADPM) e a Fundação Museu do Douro.

A Assembleia da República aprovou em 2021, por unanimidade, projetos de resolução do BE, PAN, PSD, PCP e PEV que defendem a requalificação da Linha do Douro e a reabertura até Barca d’Alva.