Vinho do Porto: Brexit deixa setor apreensivo

Empresas do setor estão expectantes sobre o futuro do comércio de Vinho do Porto com o Reino Unido (RU) numa altura em que as nego­ciações com a União Europeia (UE) já se iniciaram devendo estender-se por todo o ano de 2020.

A saída do Reino Unido da União Europeia é uma realidade desde o dia 1 de fevereiro, com a confirmação do Brexit vieram também algumas incertezas em especial no que diz respeito às tro­cas comerciais entre os países da união e o país de Sua Majestade, deixando os responsáveis das empresas de Vinho do Porto apreensivos quanto ao futuro. Contudo há também um sentimento de alguma esperança em que as partes consigam chegar a um entendimento que seja favorável a todas as partes, fundamentado no relacionamen­to histórico da Grã-Bretanha com este produto.

Contactada pelo VivaDouro, a líder de mercado Symington Family Estates considera ser ainda “prematuro comentar o impacto do ‘Brexit’ no setor dos vinhos do Porto e do Douro”.

“A única certeza que existe é que o Reino Unido formalizou a sua saída da União Europeia no dia 31 de janeiro de 2020. Seguir-se-á , tudo indica, pelo menos um período de 11 meses de nego­ciações entre o Reino Unido e a União Europeia para definir o futuro relacionamento entre am­bos. Ou seja, só quando essas negociações fica­rem concluídas será possível saber, em concreto, quais os efeitos reais e potenciais sobre o nosso setor“, afirmou a direção da empresa.

Com um posicionamento importante a Syming­ton Family Estates afirma ainda que se manterá atenta ao desenrolar das negociações acreditando que o bom senso das partes prevalecerá, não só para o bem do setor mas também para a defesa dos interesses dos países mais pequenos da EU.

“É evidente que temos acompanhado com mui­ta atenção os desenvolvimentos nestes últimos três anos. O Reino Unido é um mercado muito importante, não só para a Symington Fami­ly Estates, mas para todo o setor dos vinhos do Porto e do Douro. A evolução das nossas vendas no mercado do Reino Unido tem sido favorável (embora com alguns desafios) nos últimos anos e mantemo-nos otimistas quanto ao futuro.

Acreditamos no bom senso de todas as partes en­volvidas e na vontade de se chegar a um entendi­mento que continue a privilegiar o bom relacio­namento comercial em todos os domínios e que, no quadro das negociações, se garanta que os in­teresses de todos, nomeadamente dos países mais pequenos da União Europeia, sejam defendidos e não sacrificados em nome de interesses maiores”.

Expectante nas negociações está também a Asso­ciação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP) que, na voz da diretora executiva Isabel Marrana que assume que a associação irá “acompanhar de perto” a evolução das negociações admitindo que “podem correr bem ou mal”, mas confessa-se “muito confiante nas ligações histórico-culturais” que o vinho do Porto tem com o Reino Unido.

“Acho que o vinho do Porto até pode ser um faci­litador para outras discussões noutros produtos. Se estivesse a vender tomate pelado ou frutícolas estava mais preocupada, porque não era um mer­cado maduro, porque não tinha as tradições que tem, porque não tinha empresas que são inglesas a vender para lá. Apesar de tudo, dentro da im­previsibilidade, estamos com o melhor contexto possível. As empresas líderes de mercado são in­glesas, portanto os protagonistas que vendem o Vinho do Porto são, de facto, empresas inglesas, o que facilitará certamente”, afirmou.

Em posição mais confortável está a Real Compa­nhia Velha, a empresa criada em 1756 não tem neste momento no Reino Unido uma grande expressão, a aposta em outros mercados garante, por agora, uma certa tranquilidade.

George Sandeman – Chanceler da Confraria do Vinho do Porto

“No que diz respeito à Real Companhia Velha o mercado britânico não é prioritário em termos de valor ou volume, não temos uma posição forte nesse mercado o que faz que não estejamos dema­siado preocupados com o Brexit. Se uma situação destas se registasse na Alemanha, por exemplo, onde aí sim, somos líderes de mercado, a situação seria mais preocupante”, afirma Rui Soares.

O responsável da empresa lembra, contudo, que um possível decréscimo no mercado britânico poderá ter consequências para a Real Compa­nhia Velha se as empresas afetadas começarem a procurar novos mercados.

“Do ponto de vista do setor, obviamente que esta é uma situação que nos preocupa. É sabido que o mercado inglês é importante para o setor, até pela ligação histórica que existe, portanto, qualquer coisa que possa perturbar o mercado preocupa­-nos. Efetivamente se houver uma baixa no mer­cado britânico certamente que as empresas irão reagir tentando encontrar outros mercados para os seus produtos e aí pode-nos provocar mossa nos mercados em que nós atuamos. Ou seja, no nosso caso a nossa preocupação com o Brexit não é o mercado em si mas nas consequências que daí podem advir para outros mercados”.

Confraria do Vinho do Porto expectante

Estabelecida com o propósito fundamental de “ difundir, promover e consolidar o nome do Vi­nho do Porto em todo o Mundo”, a Confraria acolhe no seu seio, pessoas e entidades que pela sua atividade na produção e exportação de Vinho do Porto, bem como pela sua ação, reputação e serviços em favor do Vinho do Porto, contri­buem para o seu conhecimento e prestígio da sua imagem.

George Sandeman, atual Chanceler da confraria, em declarações ao VivaDouro, começa por assu­mir que a organização “não é política” e que por essa razão “não faz declarações políticas”, contu­do afirma que a organização olha para o Brexit “como olha a maior parte do mundo, menos aqueles que votaram no “Sim” à saída, como uma certa confusão”.

“A Confraria tem a missão de manter as tradi­ções do Vinho do Porto e promover novas for­mas das pessoas o apreciarem.

Ainda recentemente foi discutido que a Confra­ria não tem feito nenhuma missão a Inglaterra como temos feito à China ou ao Brasil, por exemplo, a rea­lizar-se uma missão ela só acontecerá lá para 2021 ou início 2022, quando as coisas estiverem mais calmas. Temos de olhar para o futuro com algum otimismo, é esse também o nosso papel olhando ao Vinho do Porto”.

O chanceler não acredita que o Vinho do Porto seja uma moeda de troca nas negociações entre a UE e o Reino Unido lembrando, contudo, que o Brexit pode trazer alguns problemas como é o caso das denomi­nações de origem e os atrasos na entrada de produtos naquele país devido à existência de fronteiras físicas.

“As negociações entre Inglaterra e a UE vão levar al­gum tempo e eu não acredito que o Vinho do Porto funcione como uma moeda de troca, isso dar-nos-ia um estatuto artificialmente importante até porque os grandes negócios estão no setor bancário, nos ser­viços ou nos automóveis, por exemplo. No que diz respeito a bebidas alcoólicas, o Reino Unido também quer que a europa continue a importar o whisky que produz.

Um problema que pode surgir é a questão das indica­ções geográficas, se o RU irá, no futuro, respeitar es­sas indicações. Tudo dá a entender que sim mas nas negociações com os EUA pode começar a importar “Port”. Contudo, eu acredito que o consumidor inglês distingue bem entre o Vinho do Porto e uma coisa que tenta usar esse nome, não acho que as pessoas vão alterar os seus hábitos para comprar um vinho mais barato.

Outro problema que pode existir é o tempo que os produtos poderão demorar a entrar no mercado bri­tânico devido à existência de fronteiras. No caso do Vinho do Porto esta situação não é tão grave como em alguns produtos perecíveis como as frutas ou as hortaliças, por exemplo. Contudo há já algumas em­presas a enviarem o Vinho do Porto por via marítima para alguns portos na costa este, como Bristol, por exemplo, que são menos usados e podem demorar menos tempo. Isto pode ter impacto nos custos ao consumidor final e não tenho dúvidas vão querer que o produtor assuma uma parte desse valor para ter acesso ao mercado”.

Governo com mensagem de “relativa tranqui­lidade”

Em declarações exclusivas ao VivaDouro, o Se­cretário de Estado para a Internacionalização, Eurico Brilhante Dias garante que o governo está relativamente tranquilo quanto ao futuro no que diz respeito à exportação de Vinho do Porto para o Reino Unido.

“A nossa mensagem é de relativa serenidade. Mesmo num cenário de indefinição como o que se viveu no ano passado, quando a saída do Reino Unido da União Europeia era uma possibilidade presente, a exportação portuguesa de vinho para o Reino Unido cresceu 3,0% face ao ano anterior, tendo atingido 77,7 milhões de euros – o equiva­lente a 9,5% das exportações portuguesas totais de vinho e 2,13% das exportações totais portu­guesas de bens para o Reino Unido.

O Vinho do Porto (engarrafado), com um peso de 57,3% das exportações globais de vinho para o Reino Unido, foi o principal tipo de vinho ex­portado para o mercado britânico, com 44,5 M€, tendo as vendas aumentado 8,0%, comparativa­mente a 2018. O Reino Unido foi o 2º principal mercado cliente de Vinho do Porto, com uma quota de 14,2% nas exportações totais de Portu­gal do produto. Por fim, é importante referir que Portugal foi, no ano transato, o 11º fornecedor de Vinho do Reino Unido, com uma quota de 1,9% nas respetivas importações totais”.

O governante garante ainda que Portugal, jun­tamente com os restantes países-membros da União Europeia, estão empenhados a levar as ne­gociações com o governo britânico a bom porto, evitando assim a aplicação de taxas aduaneiras a diversos produtos, entre eles o Vinho do Porto.

“A União Europeia pretende que o acordo sobre a relação futura com o Reino Unido assente numa lógica de zero tarifas e zero contingentes pautais. Isto é, se vingar aquele que é o cenário ideal para a UE (e para Portugal também), os fluxos de co­mércio entre o Reino Unido e os Estados-mem­bros da UE poderão continuar a fazer-se sem que os custos aduaneiros aumentem.

O Reino Unido é um cliente histórico para o Vi­nho do Porto. Não é expectável que tenha inte­resse em dificultar as importações deste produto, onerando-as com tarifas. A título de exemplo, ve­ja-se que, em 2019, o Reino Unido publicou um “regime tarifário temporário” que seria aplicado no caso de saída da União Europeia sem acordo (que acabou por não se verificar). Nesse regime, 87% dos bens a importar pelo Reino Unido fica­riam isentos de tarifas, e o vinho não se encontra­va entre os 13% de bens que ficariam sujeitos a direitos aduaneiros.

Jason Owen – Importador britânico

Mesmo que não se atinja o modelo de acordo ideal para a UE (e para Portugal), há margem para crer que as exportações de vinho do Porto para o Reino Unido não serão necessariamente penalizadas”.

Uma das preocupações do Governo, garante Eu­rico Brilhante Dias, é assegurar a proteção das In­dicações Geográficas de diversos produtos como é o caso do Vinho do Porto.

“Do mesmo modo, a UE tem muito presente a necessidade de garantir tanto os termos de aces­so ao mercado como a proteção adequada das Indicações Geográficas como o vinho do Porto. Este interesse é prosseguido por um conjunto de Estados-membros que Portugal integra, com outros como França, Espanha, Itália ou Grécia, que insistem na necessidade de não se descurar a proteção das IG.

Nesse contexto, é importante salientar que está já salvaguardado que o Reino Unido continuará a dar proteção, no seu território, às IG europeias atualmente existentes (o que inclui o vinho do Porto), bem como àquelas que venham ainda a ser reconhecidas até ao final de 2020. Para que não haja dúvidas, este não é um aspeto que esteja dependente da negociação sobre a relação futura entre a União-Europeia e o Reino Unido que irá ter lugar durante este ano”.

O Secretário de Estado garante ainda que, no caso de haver uma forte quebra no comércio com o Reino Unido, o Governo tem já preparado um fundo de 50 milhões de euros como resposta.

“O Governo aprovou, em janeiro do ano passado, o Plano de Preparação e de Contingência para a saída do Reino Unido da União Europeia. Entre as medidas previstas nas várias dimensões do re­lacionamento com aquele país, houve uma preo­cupação particular com os potenciais impactos na relação económica bilateral. Foram reforçadas as equipas dos postos consulares e da Embaixada no Reino Unido (incluindo com elementos da AICEP e do Turismo de Portugal) e, para reduzir possíveis constrangimentos de acesso ao merca­do, entidades públicas e privadas, como a AICEP, o IAPMEI, a Autoridade Tributária e diversas associações empresariais têm vindo a promover iniciativas de sensibilização e capacitação dire­cionadas às empresas portuguesas que exportam ou pretendem exportar para o Reino Unido.

Foi ainda criada uma linha de crédito, num montante global de 50 milhões de euros, para colmatar as falhas de mercado identificadas nas operações de financia­mento a realizar por empresas com exposição àquele mercado e que comprovem necessidades de financia­mento (investimento ou fundo de maneio) relacio­nadas com estratégias de resposta ao Brexit”.

Importadores e consumidores confiantes

Presentes num dos maiores eventos de vinho do país, a Essência do Vinho, estiveram diversos importa­dores e consumidores britânicos de Vinho do Porto que, apesar de ainda nada estar definido, se mostra­ram confiantes no futuro das relações entre Portugal e o Reino Unido.

Jason Owen é um Neozelandês a viver em Londres há 12 anos, importador e comerciante de vinhos as­sume que o Brexit não o preocupa quando se fala de Vinho do Porto, o mesmo não acontece com outros tipos de vinho como os espumantes, por exemplo.

“O Vinho do Porto tem uma grande vantagem neste caso, é um vinho que só se pode produzir numa re­gião em todo o mundo, é um produto único e com o qual os britânicos têm uma relação muito próxima por isso não acredito que haja qualquer dificulda­de na sua importação, nem sequer prevejo que vão existir qualquer tipo de taxas para este produto. Já no caso de outros vinhos, como os espumantes, por exemplo, a situação é diferente, Inglaterra já produz alguns espumantes e por aí pode existir uma vontade de proteger um pouco mais o seu produto aplicando taxas aos que são importados, aumentando assim o seu preço ao consumidor final”.

O empresário assume ainda que para os ingleses se­ria “impossível viver sem Vinho do Porto, é uma das bebidas mais procuradas em todo o país”. “A história, a herança que temos deste vinho é muito grande e certamente que será para continuar durante muitos anos”, conclui.

Também Jennifer Robinson demonstra a mesma confiança à nossa reportagem. Para esta consumido­ra seria “uma tragédia” não ter Vinho do Porto em Inglaterra. “Não imagino esse cenário, temos uma ligação tão forte com este vinho que já faz parte da nossa cultura e das nossas tradições”.

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