Quinta Seara d’Ordens inova com vindima noturna

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A hora desta reportagem foi marcada com Fernando Moreira, um dos três irmãos proprietários da Quinta Seara d’Ordens, no Peso da Régua, e desde logo ficou evidente um facto, a noite seria para ficar em dívida ao descanso.

À chegada à quinta o relógio marca quase as três horas da noite, a lua em quarto minguante reflete pouca luz num céu escuro onde se vão amontoando estrelas que a ausência de nuvens deixa ver.

Com o carro já estacionado, ao sair da viatura os sons não deixam enganar, há mais gente que também faltou ao encontro com a cama esta noite. Ouvem-se os motores das carrinhas e dos tratores por entre vozes que vão dando indicações ou dialogando.

O olhar passa pela vinha e uma luz aproxima-se. “Boa noite, procuro o senhor Fernando Moreira”, questiono sem perceber bem quem é o meu interlocutor, de rosto “escondido” pelo brilho da lanterna que traz na cabeça. “Siga por esta estrada, ao chegar ali ao fundo encontra-o”. Ouço as indicações e sigo ao encontro do meu entrevistado.

Por esta altura já é evidente que a azáfama da vindima que conheço é vivida por entre aqueles bardos que percorro. Tudo indica que os trabalhos prosseguem a bom ritmo, com uma diferença, esta vindima é feita no período em que o sol está no outro hemisfério.

Chego próximo de Fernando Moreira e, depois dos cumprimentos iniciais, a questão surge sem hesitação, como surgiu a ideia de fazer a vindima durante a noite?

“A ideia surgiu há alguns anos, quando começamos a vinificar, porque sentíamos que as uvas teriam de chegar mais frescas à adega para evitar a sobrecarga energética na sua refrigeração, em especial nos anos mais quentes, e nos vinhos brancos que chegavam a entrar com temperaturas a rondar os 30 graus.

Mais tarde, conseguimos arranjar uma equipa pequenina para experimentar a vindima noturna. Foi complicado porque as pessoas achavam que não ia resultar, que iam ter dificuldades em ver, etc. Contudo, a partir do momento em que os convencemos a história mudou e eles próprios foram comentando com colegas”, explica.

Para o responsável pela viticultura da empresa, a vindima noturna tem diversos aspetos positivos, começando pelo bem estar dos colaboradores até à redução do consumo de energia e uma melhoria nos vinhos ali produzidos.

“As grandes vantagens desta vindima são várias, desde logo para os nossos colaboradores que evitam andar a trabalhar com sol e calor, depois também acabam por ter uma maior rentabilidade.

Outro aspeto positivo da vindima noturna é a sustentabilidade ambiental, que também está relacionada com a parte económica da empresa. Ao vindimarmos uvas mais frescas vamos poupar energia tendo menor necessidade de as arrefecer, o que também se irá refletir a nossa conta de luz.

A somar a tudo isto está a qualidade que conseguimos nos vinhos, a uva entra fresca na adega e vamos trabalhá-los nas melhores condições”.

Entre os homens e mulheres que vão e vêm entre bardos a colher as uvas está Manuel Carvalho. Com a pele já bem marcada pelos anos confessa que é a primeira vez que faz uma vindima noturna e, apesar da desconfiança inicial, assume que a nova experiência o agrada.

“Já faço vindimas há muitos anos mas à noite é a primeira vez. Estou surpreendido porque quando me disseram estranhei mas a verdade é que está a ser uma experiência muito positiva. Já comentei mesmo com alguns amigos e até lhes disse que este pode ser o futuro das vindimas. Para nós é bom porque não apanhamos tanto calor, assim como as uvas não são apanhadas tão quentes.

Pensei que depois do primeiro dia não ia querer vir mais, mas agora já digo que onde houverem vindimas à noite podem contar comigo”.

O relógio aproxima-se das cinco horas da noite, hora a que se iniciam os trabalhos na adega, para os quais chegam “reforços”.

António Moreira, irmão de Fernando, é o responsável pelo departamento enológico, vem acompanhado de João Moreira, filho, e José Moreira, filho de Fernando, ambos formados em enologia pela UTAD e que também já fazem parte do negócio da família.

Acendem-se as luzes da adega, ligam-se as máquinas para começar a colocar nos tabuleiros de escolha as uvas que já estão alinhadas em caixas na entrada.

Enquanto tudo vai sendo preparado, a conversa prossegue com António que conta que o início deste projeto foi um pouco difícil pela desconfiança dos colaboradores em trabalharem de noite.

“Acho que vai ser natural no futuro. No início tivemos algumas dificuldades em incentivar as pessoas a vindimar à noite. Este ano temos dois empreiteiros a trabalhar connosco e um deles dizia que ia ser difícil encontrar gente disponível, o que é certo é que no primeiro dia iniciamos às três e meia da manhã, no segundo às duas e, por vontade deles, começávamos à meia noite, mas não é compatível com o horário da adega. É muito melhor para o pessoal em especial em termos de temperaturas, requerendo um maior cuidado nas manobras com os tratores e as carrinhas para se evitarem acidentes porque, como sabemos, o nosso terreno é um pouco complicado”.

Se há duas ou três décadas atrás as vindimas se iniciavam no final de verão, início de outono, com as mudanças registadas no clima a “época festiva”, como muitos lhe chamam, no Douro começa agora mais cedo, ainda em pleno mês de agosto, altura em que as temperaturas são muito elevadas e os vinhos, refletem isso mesmo.

“Com as mudanças climatéricas as temperaturas aumentaram bastante, chegamos a ter durante o dia 38, 39, 40 graus, e os mostos na ordem dos 32, 33 graus. Esta situação prejudica bastante a parte de enologia porque as uvas entram quentes e podem mesmo haver pré-fermentações desde a vinha até à adega. Desta forma conseguimos que o mosto entre bastante fresco que é o ideal”.

As mesmas vantagens são elencadas pelos primos João e José, que dão mais alguns pormenores sobre o processo.

“Uma uva entrada às 2 da tarde com temperaturas a rondar os 40 graus de temperatura ambiente, vêm quentes, e com um poder oxidativo muito grande, o que não é interessante para um vinho branco.

A nível microbiológico também é importante porque as temperaturas elevadas são as ideais para bactérias e leveduras se reproduzirem, podendo mesmo transformar o vinho em vinagre, usando uma imagem mais comum.

Tendo temperaturas mais baixas desde a uva permite-nos um controle muito maior de todo o processo”, explica João.

José Moreira, o mais recente membro da família a juntar-se aos trabalhos revela que “a vindima noturna ainda desperta muita curiosidade”, trazendo “várias questões colocadas pelos mais curiosos” como aqueles que ainda recentemente partilhavam as notas das aulas consigo nas salas e laboratórios da universidade.

O relógio já passou as sete horas, o céu já clareou e os primeiros raios de luz vão aparecendo, tímidos, mas a anunciar mais um dia quente pelos jardins suspensos do Douro.

À saída da Quinta Seara d’Ordens há ainda tempo para parar o carro e registar em fotografia aquela paisagem que nos tira a respiração.

Na região demarcada mais antiga do Mundo ainda há espaço para a inovação e novas metodologias de trabalho.