Conversas em isolamento: Medicina Veterinária

Luís Valente é veterinário há 23 anos, em entrevista ao VivaDouro fala dos cuidados que devemos ter com os nossos animais de estimação durante este período de isolamento.

Para começar, peço que nos esclareça sobre uma das dúvidas que ainda subsiste no que diz respeito aos animais. É se estes transmitem o vírus?

A transmissão do coronavírus faz-se de humanos para humanos através de secreções e aerossóis. Até agora, não há qualquer evidência científica consistente de que os cães e gatos ou outros animais de companhia possam ser transmissores ou sequer albergar o vírus da COVID-19. Muitas espécies de mamíferos apresentam infeções por outros coronavírus, mas que são muito diferentes daquele que causa a COVID-19. Nem esses vírus infetam os humanos nem é provável que o coronavírus da COVID-19 infete outras espécies.

Muitos de nós temos animais em casa, que cuidados devemos ter com eles durante o isolamento?

Durante este período de isolamento, os animais, tal como nós, necessitam de exercitar o corpo e a mente. É um facto que a restrição de movimentos a que estamos sujeitos atualmente poderá condicionar o exercício regular dos nossos animais de estimação, levando a uma vida mais sedentária com consequente aumento de peso e maior incidência de patologias a ele associadas, assim como ao aparecimento de distúrbios de foro comportamental motivados pela alteração das rotinas a que os animais estão habituados.

No entanto, os passeios regulares com as devidas precauções, continuam a ser permitidos e recomendam-se para combater o sedentarismo e o aborrecimento. Este último, sem dúvida, também pode ser combatido em casa, uma vez que, estando os tutores mais presentes na vida dos seus animais, poderão sempre, com alguma vontade e imaginação, realizar inúmeras atividades lúdicas divertidas com eles.

Muitos deles normalmente estão sós ao longo do dia, é possível que a presença dos donos em casa por um tempo tão longo mude os seus comportamentos?

Não creio que, especificamente os cães, se incomodem com a presença mais frequente dos tutores em casa, antes pelo contrário. Para esta espécie, o maior problema poderá ser quando, uma vez ultrapassada esta fase crítica de combate à COVID-19, a nova alteração de hábitos dos tutores, com o regresso às suas rotinas diárias fora de casa, conduzirá a problemas comportamentais como a ansiedade de separação em alguns deles.

Pelo contrário, os gatos, que são animais mais territoriais e independentes e, por essa razão, necessitam de usufruir do seu espaço e estar mais à vontade no seu ambiente, poderão sofrer algumas consequências pela presença constante dos vários elementos do agregado familiar em casa, nomeadamente crianças que, inevitavelmente, são mais barulhentas e agitadas. Esta partilha do território caseiro com outros “parceiros” pode acarretar um incremento da ansiedade com alterações comportamentais que se poderão manifestar por marcações de território (arranhões verticais, marcações urinárias…) e aumento de agressividade e conflitos ou simplesmente tentativas de isolamento escondendo-se. Não obstante, as interações com os felinos devem ser fomentadas, através de brincadeiras e jogos (como por exemplo jogos de caça uma vez que o gato é um animal caçador), mas recordando sempre as peculiaridades desta espécie.

Os felinos têm uma natureza diferente da dos cães. Consideram o ser humano como um igual, como um “parceiro” de convívio no seu meio social. Já os cães consideram a família humana como a sua “matilha”.

O que podemos fazer para minimizar essas alterações de comportamento?

No caso dos cães, como referi, a presença praticamente constante de vários elementos do agregado familiar no seu meio não acarretará qualquer problema de comportamento. Sendo assim, apenas posso aconselhar que aproveitem ao máximo esta partilha de espaço e de tempo com os vossos animais para muitos mimos e brincadeiras que serão benéficos tanto para os animais como para os tutores, sejam adultos ou crianças, pois não tenho dúvidas dos seus efeitos terapêuticos contra o isolamento e o tédio.

Pelas suas caraterísticas especiais, os gatos deverão ter um tratamento algo diferente, ou seja, os seus tutores devem criar-lhes condições no seu habitat que permitam o enriquecimento ambiental, como locais para dormir e descansar e locais onde se possam esconder (pode colocar caixas de papelão espalhadas pela casa e de preferência em locais altos como armários ou prateleiras, etc). Permitir que os gatos tenham acesso a sítios altos onde se sentem mais seguros (eles gostam de controlar) é também uma excelente ideia. Porque não colocar mais algumas prateleiras pela casa?

Ao contrário do que as pessoas pensam, os gatos precisam de tanta atenção como os cães. Brincar com seu gato é uma forma importante de manter-lhe a saúde e os laços afetivos animal-tutor. Por sorte, os gatos adoram brincar! Caçar ainda é parte fundamental da vida de qualquer gato, mesmo os de apartamento, por isso as brincadeiras dos gatos são quase que totalmente dedicadas à simulação do seu comportamento relacionado com a caça. Escolha brinquedos que ele possa “caçar” (ex. bolinhas feitas com papel ou alumínio, etc), mas nunca as suas mãos…podem sair um pouco danificadas da brincadeira…reserve as suas mãos para as carícias.

Os gatos são animais de estimação cuja confiança e afeto precisam ser conquistados pelo dono.

Quanto à alimentação dos nossos companheiros devemos ter algum cuidado?

Os conselhos relativos à alimentação são os mesmos de sempre, mas agora feitos de forma redobrada. Quero dizer com isto que, uma vez que permanecerão mais pessoas em casa na companhia do seu animal de estimação disponíveis para oferecer alimentos, o agregado familiar deverá estipular algumas regras relativamente à alimentação do cão ou do gato:

Devemos evitar a oferta de guloseimas e refeições extra ao nosso animal de companhia, como por exemplo os restos das nossas refeições, os doces, aperitivos, etc.

No agregado familiar deve-se nomear um e só um membro para colocar a ração no prato do animal de estimação.

Não esquecer que, face à possível restrição nos períodos de exercício que poderão ocorrer, as necessidades energéticas do nosso patudo serão menores, pelo que a quantidade de ração fornecida deverá também ser menor, aconselhando-se sempre a sua medição (através de uma balança ou de copos medida fornecidos com a ração) antes de colocar a dose indicada no comedouro.

Caso o animal esteja muito confinado e condicionado na prática de exercício, o tutor pode sempre optar por mudar a ração do seu animal para uma ração de controlo ou perda de peso, prevenindo desta forma o aparecimento da indesejada obesidade.

Por último, caso o animal apresente alguma patologia em que necessite de comer uma ração dietética de tratamento, o seu veterinário continuará ao seu serviço para que esta ração nunca lhe falte.

Dizem-nos que quando saímos, ao regressar a casa devemos descalçar-nos e lavar bem as mãos. Se vamos passear o nosso cão à rua, por exemplo, que cuidados devemos ter durante o passeio e no momento do regresso a casa?

Não há qualquer justificação nesta altura para tomar medidas que afetem o bem-estar dos animais de companhia e as relações destes com os seus cuidadores e outros humanos. Por exemplo, passear o cão não apresenta risco acrescido desde que sejam tomados os cuidados gerais amplamente divulgados – manter a distância recomendada de outros humanos, evitar tocar na cara, boca ou olhos e lavar/desinfetar as mãos ao regressar a casa. Ter um animal de companhia não é considerado um fator de risco. No entanto, todos os que convivem com animais de companhia são aconselhados a lavar muito bem as mãos depois de interagir com os seus animais. Também não devem deixar os animais lamber a cara nem ter acesso às camas dos humanos. É ainda recomendável a higienização das patas dos animais após os passeios no exterior.

Como devo proceder com o meu animal no caso de ficar infetado?

Se possível identifique e combine com uma outra pessoa para tratar do seu animal, de preferência alguém que viva na sua casa, já que manter o animal no seu ambiente não é um risco e representa sempre uma mais-valia para o animal. Tenha em casa alimento (e, se necessário, medicamentos) para o seu animal para pelo menos 15 dias.

Se na mesma casa estiver uma pessoa infetada em isolamento e uma pessoa não infetada, o animal de companhia poderá visitar ambas?

Não. O princípio da precaução diz-nos que não. Dever-se-ão tomar todas as medidas para que o animal de companhia não contacte com a pessoa infetada ou suspeita. Se tal não for possível, aqueles que estiverem infetados, com ou sem sinais clínicos, ou mesmo suspeitos, devem usar máscaras sempre que entrarem em contacto com os seus animais.

O que devo fazer se o meu animal precisar de ir ao Médico Veterinário?

Primeiro que tudo contacte por via telefónica o seu Médico Veterinário assistente a solicitar instruções. Na situação atual, é natural que o seu Médico Veterinário tente resolver as situações menos urgentes sem a necessidade de se deslocar ao CAMV (Centro de Atendimento Médico-Veterinário) com o animal. Se estiver infetado ou em quarentena, nunca leve o animal ao Médico Veterinário sem o contactar primeiro, assim como às autoridades sanitárias. É muito importante que o CAMV saiba que irá receber um animal proveniente de um local infetado ou suspeito.

Apesar dos conhecimentos sobre este coronavírus serem ainda bastante escassos, a ciência apresenta diariamente novos factos. A Associação Mundial de Veterinários Especialistas em Animais de Companhia (WSAVA) e a Ordem dos Médicos Veterinários (OMV), aconselha todos os detentores de cães ou gatos que vivam em áreas infetadas com COVID-19, a ir seguindo as informações emanadas apenas de fontes credíveis (OMS, DGS).