Saúde no Douro – Entre atrasos e inovação

A denúncia partiu do Sindicato Independente dos Médicos (SIM), no Serviço Nacional de Saúde há doentes que esperam mais de mil dias por uma consulta.

De acordo com um levantamento feito pelo SIM, há especialidades nas quais mais de metade dos hospitais têm um tempo de espera superior ao prazo máximo definido por lei para uma consulta normal que é de 120 dias. Para o sindicato, os números dão força a uma reivindicação antiga dos médicos que pedem a redução dos horários de urgência. Segundo o SIM, os atrasos nas consultas de especialidade são uma consequência de cerca de metade do horário normal de trabalho, 18 em 40 horas, estar dedicado ao serviço das urgências.

Hugo Cadavez, médico e Secretário Regional do Norte do SIM, entrevistado pelo VivaDouro afirmou que “hoje, um médico, num horário de 40 horas semanais passa 18 no serviço de urgência, ficando o restante tempo para consultas, cirurgias, apoio aos doentes hospitalizados e ainda formação”, uma situação que, para o médico, é insustentável.

 O dirigente sindical identifica ainda outras questões mas destaca “a falta de atratibilidade do setor público face ao privado e face ao estrangeiro, ou seja, assistimos a uma fuga dos médicos recém formados”, dando como exemplo “os 700 médicos que recentemente se formaram e que estão quase à meio ano à espera da abertura de um concurso para ingressarem no SNS, concurso esse que devia ter sido aberto até um mês após a conclusão do seu internato”.

Depois existem, no entender do SIM, outras razões como a degradação da carreira e dos meios hospitalares que acabam por afastar os médicos do serviço público, um sinal efetivo “da inação do governo perante esta problemática”.

Hugo Cadavez afirma ainda que “uma das reivindicações dos médicos é o baixar das 18 para as 12 horas semanais na urgência, isso libertava seis horas essenciais para todo o trabalho que é necessário fazer e permitia também um acréscimo da qualidade de assistência que é prestada aos doentes”.

Confrontado com as declarações do Ministro da Saúde no parlamento, afirmando que que estes casos extremos (os atrasos nas consultas) são de menor dimensão, o dirigente do SIM mostrou-se indignado com a afirmação. “Afirmar que estes caso são uma exceção é totalmente falso. E isso é fácil demonstrar pelos dados que nós disponibilizamos e que são públicos. Infelizmente esta postura do senhor ministro é normal, negar a existência de problemas e insistir na ideia de que está tudo bem. Isto é falso, as coisas estão mal, muito mal”.

As maiores demoras, com tempos médios de espera acima dos 1000 dias, verificam-se em unidades do interior norte, mas também do centro Litoral. Urologia no Hospital S. Pedro, em Vila Real, chega a ter um tempo de espera de 1600 dias (mais de quatro anos). Para uma consulta de Oftalmologia no Hospital de Chaves pode ter de esperar 1038 dias. Há ainda casos em que uma consulta classificada como muito prioritária (o prazo recomendado neste casos é de 30 dias) pode demorar mais tempo (810 dias) do que uma consulta apenas prioritária (786) dias.

De acordo com uma nota divulgada pelo Sindicato Independente dos Médicos, mais de 70% dos hospitais não cumprem os tempos de resposta máximos para a oftalmologia, situação semelhante passa-se na ortopedia, na reumatologia ou na neurocirurgia.

“A grande maioria dos hospitais do SNS debate-se com enormes problemas no cumprimento dos tempos máximos de resposta garantidos para primeira consulta hospitalar, sendo várias as especialidades em que mais de metade dos hospitais apresenta um tempo médio de resposta superior ao máximo legalmente estabelecido”, refere o Sindicato.

Para Hugo Cadavez, a interioridade tem aqui também um peso substancial até porque “aumenta a dificuldade em atrair e fixar médicos nestas regiões”, reiterando que não é apenas uma questão de salário mas também das condições que lhe são disponibilizadas, “um jovem médico que vá para o interior não tem acesso aos melhores equipamentos, sentindo-se muitas vezes limitado na prestação dos cuidados de saúde que pode prestar, daí a opção por ficar no litoral ou ir para o privado”.

A abertura de dois hospitais privados em Vila Real “pode agravar as condições no SNS porque os salários e as condições são muito melhores nos hospitais privados”.

Indignados com a situação que se vive no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Drouro (CHTMAD), os deputados do PSD na Assembleia da República questionaram o ministro sobre as soluções que este teria para resolver a situação.

Luis Ramos, falou ao VivaDouro, para o deputado social democrata, “a situação do Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro é grave, inadmissível e preocupante. Os tempos de espera para as consultas externas em especialidades como a urologia (mais de 4 anos), a oftalmologia (quase 3 anos), reumatologia (2 anos e meio) ou a cirurgia vascular (mais de 2 anos) não são próprios de um país europeu e muito menos compatíveis com a narrativa que ouvimos ao longo dos últimos meses sobre a contratação de novos médicos e a melhoria das condições de funcionamento dos hospitais que integram este Centro.

As populações de Trás-os-Montes e Alto Douro foram iludidas, enganadas e desrespeitadas num dos seus direitos fundamentais, o direito a um serviço de saúde de qualidade, isto é com a capacidade de responder adequadamente e atempadamente às necessidades e expectativas das pessoas”.

No entender do deputado as responsabilidades estão bem identificadas. “A responsabilidade de toda esta situação é indiscutivelmente do Dr. António Costa, do Ministro da Saúde e da política deste governo. As cativações e os cortes cegos na saúde têm impedido os conselhos de administração dos hospitais de resolver os seus problemas mais prementes. As dívidas acumulam-se, faltam meios e recursos e, pasme-se, muitos dos jovens médicos formados nos hospitais do Interior acabam por sair para o Litoral e para Lisboa por inépcia ou falta de vontade política do Ministério da Saúde que usa os expedientes centralistas das autorizações prévias, apesar de toda a conversa fiada e da repetição dos anúncios de novas contratações de médicos, para os desviar para outros locais. Aconteceu recentemente em Vila Real e tem acontecido um pouco por todo o país. E, naturalmente, sem médicos não pode haver consultas e os tempos de espera aumentam inexoravelmente. Por vezes fica a impressão que esta degradação dos serviços é propositada e visa transferir para o litoral, por falta de médicos ou de equipamentos, muitas destas especialidades. Para um governo que enche a boca com os slogans da coesão territorial e a defesa do Interior, este é mais um exercício de puro cinismo e hipocrisia política.

“Mais do que viver numa realidade paralela, o Ministro da Saúde e o Primeiro-ministro procuram dissimular em permanência a realidade em que o país vive, escondendo dos portugueses muitos factos, como as cativações tornadas permanentes, a espiral de endividamento da saúde, a falta de recursos e a degradação generalizada dos serviços de saúde em todo o país. Como tem sido hábito noutros domínios, o governo recorre à propaganda para multiplicar e repetir anúncios de novas contratações de profissionais e de investimentos públicos, que são sempre os mesmos ou nunca chegam a acontecer, ou para martelar e até falsear as estatísticas, como já foi denunciado relativamente ao apagão nas listas de espera que alguns hospitais levaram a cabo. À força de querer negar esta realidade e fabricar uma outra, alternativa, é bem possível que o Primeiro Ministro e o Ministro da Saúde acabem por acreditar nas suas próprias fabulações e inverdades.” Afirma ainda.

Para Luís Ramos a estratégia pode passar por inverter uma situação habitual no verão quando alguns médicos do norte são destacados para o Algarve como forma de dar resposta ao aumento de afluência aos serviços de saúde nesta região. “Compete ao governo, ao Ministro da Saúde e ao Conselho de Administração do Centro Hospitalar encontrar as soluções adequadas para resolver este problema o mais rapidamente possível. Governar é isso mesmo, resolver problemas. Mas desde já fica a pergunta: se durante os meses do verão o Ministério da Saúde vem á região buscar médicos para reforçar os hospitais do Algarve, ainda que temporariamente, porque razão não pode fazer o mesmo para acudir à situação de emergência em que vive o Interior Norte? Porque é que não são dados incentivos específicos aos especialistas do litoral para que, num prazo relativamente curto, os atrasos das listas de espera sejam eliminados? Mas aqui, nos hospitais da região, em Chaves, Lamego e Vila Real, e não no Porto ou em Coimbra como por vezes insinuam os grandes arautos do centralismo e da litoralização do país. Queremos uma resposta rápida, calendarizada e com compromissos claros e quantificados por parte do governo relativamente à redução das listas de espera no Centro Hospitalar de Trás-os-Montes e Alto Douro. E não nos calaremos enquanto tal não acontecer”.

Para o dirigente político, a interioridade é um fator influenciador destes números, até porque no seu entender, “este governo e este Primeiro-ministro já mostraram que o interesse e a causa da defesa e da promoção do desenvolvimento do Interior é meramente circunstancial e tacticista na sua agenda política eleitoral. Serve apenas para adornar discursos redondos, abrir noticiários televisivos ou capear jornais. As declarações da ex-Encarregada de Missão para a Valorização do Interior, a Profª Helena Freitas, que se demitiu no verão passado, são, a esse propósito, eloquentes. Diz ela que nunca sentiu uma vontade genuína e férrea por parte do Dr. António Costa em querer mudar a situação e os status dos vários intervenientes, nomeadamente dos vários membros do governo com responsabilidades diretas no território e no seu desenvolvimento. O Programa de Desenvolvimento do Interior, então apresentado com pompa e circunstância, mais parecia uma mixórdia de medidas sem coerência e sem consistência. Como se previa, morreu no momento da sua apresentação, porque foi para isso que foi concebido: para mais um fogacho mediático. Nunca mais ninguém ouviu falar nesse programa, uma mão cheia de nada! É disso que nos queixamos, de não levarem o país e o Interior a sério”.

Questionada sobre toda a situação que se vive em especial nos hospitais de Lamego e Vila real, a direção do CHTMAD respondeu ao VivaDouro por email informando que “o Conselho de Administração juntamente com a Tutela, encontra-se a desenvolver todos os esforços no sentido de se minimizar os impactos menos positivos dos tempos médios de espera para primeiras consultas deste Centro Hospitalar.

Nesse sentido, tem sido feito um esforço adicional para a contratação de mais profissionais médicos e de enfermagem sendo que, em algumas especialidades já foram conseguidos mais recursos humanos e, desta forma, combater-se estes tempos de espera de forma mais célere à população que servimos.

Mais se informa que, apesar destes constrangimentos, o CHTMAD apresentou no ano de 2017, um balanço positivo da sua atividade assistencial traduzindo-se, principalmente, pelo aumento do número de consultas e de cirurgias realizadas face ao período homólogo.

Temos a consciência de que é fundamental a resolução desta situação, mas acreditamos que através de uma gestão atenta e com o apoio da tutela conseguir-se-á responder de forma mais positiva para esta realidade.

“Walking Clinic”, um modelo inovador em Lamego

Contrariando a tendência negativa registada nas consultas de especialidade, com excessivos tempos de espera, no Hospital de Lamego uma equipa liderada pela médica Lúcia Marinho (Diretora centro integrado de cirurgia de ambulatório do CHTMAD) e pelo Enfermeiro Jorge Sousa (Enfermeiro responsável do centro integrado de cirurgia de ambulatório do CHTMAD), implementou um sistema de consultas para os doentes que necessitam de uma cirurgia em ambulatório reduzindo a zero o tempo de espera e com ganhos financeiros tanto para o SNS como para os próprios doentes.

Inspirado em outros modelos já existentes, a consulta de “walking clinic” é uma novidado no CHTMAD e a forma como funciona tem sido alvo de muitos elogios estando já pensada ser replicada em outros serviços com os devidos ajustes.

Desde que é referenciado pelo seu médico de família, porque tem uma patologia para cirurgia em ambulatório, o doente é logo agendado para esta consulta. Ao chegar ao serviço “é visto por um cirurgião geral, que confirma o diagnóstico, faz o pedido de exames pré-operatórios, e aqui são apenas os necessários para aquele doente, para aquela situação, resultando numa diminuição de custos e tempo, até porque esses exames são logo feitos aqui numa sala que temos preparada para esse efeito, onde inclusivamente podem fazer um eletrocardiograma”, explica a Dra. Lúcia prosseguindo, “no caso de ser necessário um raio-x, um elemento da equipa acompanha o doente ao serviço de Radiologia e é atendido de imediato. Regressado ao gabinete médico o paciente tem ainda uma consulta de anestesia e finalmente a consulta de enfermagem que é muito importante porque é onde é explicado ao doente tudo o que vai acontecer no dia da cirurgia e como se deve ele preparar em casa antes desse momento.

O processo parece longo mas, “demora no máximo uma hora e meia”, afirmam os profissionais.

Este modelo, além de mais rápido, eficaz e económico tem outra vantagem para o enfermeiro Jorge Sousa, “o nosso foco é sempre o doente, focamos todo o nosso serviço nas necessidades do doente, é ele que está no centro das nossas atenções, os profissionais estão, durante esse dia todos concentrados no serviço de forma a dar a resposta que pretendemos”.

Outra das vantagens que o enfermeiro encontra neste modelo é o acompanhamento ao doente, o doente quando vem no dia da cirurgia encontra a mesma equipa, o que lhe permite desde logo baixar os níveis de stress e ansiedade, fatores muito importantes a ter em conta numa intervenção, mesmo sendo ela em ambulatório”.

No total das cirurgias efetuadas, 65% podem ser feitas em ambulatório podendo integrar este modelo com todas as vantagem que daí possam advir.

Para os dois profissionais, a inovação deste modelo não é apenas a consulta “walking clinic” mas todo o acompanhamento que é prestado aos pacientes “Quando o doente vem pela primeira vez, é-lhe ainda dado um desdobrável para relembrar tudo o que aqui lhe foi dito e onde consta também o número do serviço para onde o doente pode ligar caso lhe surja alguma duvida. 24 horas antes da cirurgia ligamos aos doentes para confirmar se está tudo bem e se irá comparecer (caso falte podemos chamar outro doente). 24 horas após a cirurgia voltamos a contactar o doente para saber como se sente, se está tudo bem e se não há nenhuma complicação. 30 dias após a intervenção voltamos a contactar o doente para saber se tem tido alguma queixa e é neste prazo que ele tem uma consulta final que confirma o encerramento do processo”, explica a Dra. Lúcia.

Um outro aspeto inovador deste serviço é o apoio prestado ao doente no domicílio, não o obrigando a deslocações frequentes ao serviço hospitalar como conta o enfermeiro Jorge Sousa, “o serviço de cuidados domiciliários é inovador no país. É uma equipa composta por um enfermeiro e um operador hospitalar que vai a casa do doente intervencionado prestar os cuidados necessários. Os doentes isentos de taxa moderadora não pagam este serviço, os que não estão isentos o valor da taxa moderadora.

A grande vantagem é que é a mesma equipa a seguir o paciente. É bom para ele porque conhece as pessoas e fica mais relaxado, é bom para nós porque nos permite estar sempre em contacto e caso surja alguma questão facilmente ela é resolvida.

Isto surge porque nós identificamos essa necessidade, até pela área geográfica que o nosso centro hospitalar abrange”.