Duriense em Moçambique fala em “caos organizado”

A tragédia que se abateu sobre Moçambique com a passagem do furacão Idai atingiu milhões de pessoas, muitas delas portugueses que vivem e trabalham naquele país africano. Entre essas pessoas o VivaDouro conseguiu falar em exclusivo com um duriense, Joaquim Vaz, que ali vive com a mulher Adelaide Lopes, e que nos relatou uma situação de “caos organizado”.

As comunicações são ainda bastante difíceis e para estabelecer contacto com o empresário português a nossa reportagem fez várias tentativas de contacto com a conversa a ser interrompida diversas vezes por falhas na rede.

De entre os milhares de portugueses que se encontram na região há vários empresários e pessoas que ali vivem há décadas, mas também há funcionários de diversas empresas “que foram embora logo no dia seguinte, centenas e centenas deles”, conta-nos Joaquim Vaz.

O empresário português fala agora de uma situação um pouco mais calma e organizada. “Aqui na cidade as pessoas estão a entreajudar-se e, de uma forma ou de outra, está tudo mais ou menos desenrascado. Isto está um caos organizado, neste momento já não há quem precise de ajuda ou de comida. Acabamos por emprestar dinheiro uns aos outros, com a água acontece o mesmo, conseguimos estar a funcionar. Esta comunidade é uma verdadeira comunidade, mesmo alguns que não gostem muito uns dos outros acabam por se ajudar no meio desta situação. Ninguém está calmo mas as pessoas já entenderam que ainda vão havendo víveres e isso descansa-os. A água mineral será mesmo o bem que vai faltar mais rápido.

Não há ninguém ferido, é tudo mais psicológico e algumas pessoas levam mais tempo a ultrapassar certas situações do que outras. Há pessoas que estão aqui há muitos anos e que perderam tudo, isto causa algum desnorte”.

Segundo este português, o governo local tem estado no terreno a tentar ajudar as populações resolvendo algumas das situações mais preocupante.

“O próprio governo moçambicano já está a reagir. Só hoje já terão aterrado no aeroporto mais de 100 aviões com ajuda, um pouco de todo o mundo, de várias cores e tamanhos. A energia está a ser lentamente restabelecida e até ao final deste fim de semana já boa parte da cidade deve ter eletricidade.

A Companhia Nacional de Água já está a distribuir água em alguns dos bairros mais desfavorecidos com cisternas. Os caminhos de ferro estão a funcionar e é possível chegar ao Zambeze, 500 quilómetros a norte daqui”.

Presente em Moçambique está já o Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas que se faz acompanhar de uma comitiva onde se incluem médicos e alguns militares que “têm estado a dar alguns conselhos para acalmar as pessoas”.

 A principal queixa que os portugueses apresentam, e que fizeram chegar o Secretário de Estado, é a inoperância do consulado português naquele país, em contraponto, afirmar, com a postura deste responsável político a quem elogiam, lamentando que não tenha poderes para fazer mais por aquela comunidade.

“O Secretário de Estado estava para voltar ontem para Portugal mas decidiu ficar, está a fazer o que pode só que não tem grande poder. É um homem bom e esforçado, mais do que muitos que se vêm por aí.

O Estado português na cidade da Beira não existe, o consulado é um mero cartório, uma agência de viagens, esta é a realidade do nosso consulado e, como é aqui é em todo o mundo. Não há um telefone satélite ou uma lista de pessoas a serem contactadas. A nossa preocupação, dos portugueses, é, ao sabermos o que aqui se passa, estamos preocupados com os portugueses da Venezuela, o que se estará a passar lá. Se aqui é assim, como será lá?!?”, afirma Joaquim Vaz.

À nossa reportagem, o empresário português fez questão de sublinhar, várias vezes, que por agora a situação está relativamente calma sem que exista qualquer foco de violência, contudo, afirma também, essa preocupação existe caso o Estado Moçambicano comece a falhar às populações.

“Neste momento é importante que as pessoas saibam que nós aqui estamos bem, lentamente cada um está a recuperar o seu negócio, a sua casa. Vamos ajudando uns aos outros e temos os mantimentos organizados. Temos aqui uma senhora, de Mogadouro, que está cá há 60 anos e é proprietária de um supermercado que está perfeitamente abastecido e a fornecer os seus clientes, dos quais muitos são portugueses.

As coisas estão a andar e estamos a aguardar que chegue mais ajuda por camião, há várias empresas de Maputo a enviar mantimentos. Não é uma situação catastrófica nem existe qualquer sinal de violência.

Poderá eventualmente surgir algum foco de violência se o governo local não atender às necessidades das populações, em especial no que diz respeito à água potável. Se não derem comida e água aos milhões de pessoas que aqui estão, aí os problemas podem surgir mas para já a mensagem que queremos passar é que a situação é calma, não há qualquer tipo de violência.

O que estamos a fazer, os portugueses, é tratar dos nossos 879 funcionários dando-lhes água e comida. Eu fiz uma mercearia num armazém, para nós e para eles, porque sabia que iriamos passar uma semana a 10 dias sem qualquer ajuda, ainda hoje o organizamos para mais quatro dias.

Neste momento a mensagem que queremos passar para os nossos familiares e amigos é que estamos todos bem e em segurança, isso é o mais importante”.