Barragens do Douro serão avaliadas pela Rede Douro Vivo

Constituída por diferentes organizações e coordenada pelo GEOTA, a Rede Douro Vivo foi formalmente apresentada no final do mês de maio na Casa das Artes, no Porto.

O projeto Rios Livres, levado a cabo pelo GEOTA (Grupo de Estudo do Ordenamento do Território e Ambiente), já tinha identificado seis cursos de água na Bacia do Douro classificáveis como excepcionais, por correrem sem obstáculos humanos e poluição, um cenário cada vez mais raro em Portugal. Agora, em conjunto com outras dez entidades, entre centros de investigação, organismos do ensino superior e organizações ambientalistas, criou a Rede Douro Vivo que nos próximos anos tentará estudar e propor soluções para protecção de um rio sobrecarregado por múltiplas actividades humanas e em cuja bacia se continuam a planear novas barragens.

Para a fundação suíça Mava, financiadora deste e outros projetos de defesa do ambiente na Europa e em África, o Douro Vivo é um projeto que pretende evitar a implementação do programa de construção de novas barragens lançado pelo governo português.

Segundo recorda Ana Brazão, coordenadora, no GEOTA, desta iniciativa, o Douro conta já com duas novas barragens, Baixo Sabro e Foz-Tua, estando uma terceira, no Alto Tâmega, já em construção. Tudo isto numa bacia que, segundo os dados conhecidos recentemente, perderá cerca de 14% da sua quantidade de água, nas próximas décadas, por causa das alterações climáticas.

No entender dos especialistas, as barragens, bem como as albufeiras que lhes estão associadas, são um dos fatores que mais influencia a qualidade da água. No caso do Douro devemos ainda lembrar os impactes gerados em Espanha (como é exemplo a recente polémica sobre a exploração de uma mina de urânio a céu aberto junto a um dos afluentes do rio), os efeitos da poluição difusa, provocada, muita dela, pela actividade agrícola, ou com a pressão do turismo, sentida, desde logo no uso intensivo da via navegável.

A caracterização desta bacia será, assim, um dos primeiros objectivos da Rede Douro Vivo que integra, entre outras universidades, a UTAD. Rui Cortes, Professor Catedrático e Diretor do Laboratório de Ecologia Fluvial (LEF) da UTAD, afirma que “a equipa de investigação encarou como um desafio aliciante este projeto, dado que visa essencialmente promover a melhoria da conetividade fluvial e a preservação da biodiversidade nos ecossistemas aquáticos. Na verdade, não só a área geográfica, como o objetivo fundamental do trabalho proposto, constituem as preocupações centrais da equipa do LEF, além de que o projeto apela a uma intensa ligação com os stakeholders locais e nacionais, pelo que pode ser um processo efetivo de alteração das políticas vigentes em relação ao ordenamento dos recursos hídricos e vai contribuir potencialmente de modo significativo para que, pelo menos na Bacia do Douro, se atinjam os objetivos preconizados pela Diretiva Quadro da Água, designadamente travar-se a degradação dos ecossistemas aquáticos e melhorar-se o estado ecológico. Acresce ainda o forte desconhecimento do número, efeito ambiental e condições de uso e segurança associados com todas as estruturas que têm sido construídas, pelo que a informação base que vai ser obtida é também de grande relevância”.

Segundo Ana Brazão, coordenadora do projeto, em Portugal existem cerca de sete mil estruturas de retenção de água, e só no rio Douro serão cerca de 100, deconhecendo-se, no entanto, quais são ainda usadas e qual o seu estado de conservação. A mesma responsável acredita que Portugal seguirá o exemplo de países como Espanha Suécia ou os Estados Unidos, destruindo barragens para uma renaturalização do território.

Na certeza que um rio é mais do que a mancha de água em si, Ana Brasão acredita que também a comunidade que depende do rio deve ser cuidada, por isso, durante os anos em que o projeto estiver ativo, outros parceiros serão convidados a participar, como representantes das comunidades e de actividades como a agricultura ou o turismo.