Castanheiro, da tragédia à inovação, uma fileira em crescimento

Numa fileira que tem cada vez maior procura devido ao alto rendimento que pode gerar, as ameaças são uma constante mas, em alguns casos, a inovação consegue dar resposta minimizando os riscos.

Como em qualquer outro setor agrícola, uma das maiores ameaças é o clima e, mesmo com todos os avanços tecnológicos não há uma fórmula que minimize os riscos. Foi o que aconteceu no início do mês de março deste ano, uma forte chuva gelada provocou avultados danos, em especial na agricultura, sendo a fileira do castanheiro também bastante afetada.

Segundo os especialistas, os danos causados terão efeitos não só este ano como nos anos subsequentes devido à dimensão e gravidade desses danos.

José Laranjo é um dos especialistas do setor, professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), falou ao VivaDouro sobre este problema.

“A água ao cair transformava-se logo em gelo que, com o peso provocou a quebra de muitos ramos, muitos deles mesmo ramos estruturais, portanto ramos que estruturam a copa das árvores. Há zonas que foram completamente flageladas por este problema, para mencionar duas podemos falar da zona da campeã e da zona de Trancoso, as zonas mais altas portanto”.

“Logo à partida deixa antever a quebra de produção já para este ano mas há problemas mais graves porque, estas feridas abertas são uma oportunidade para as doenças, em especial para o cancro do castanheiro que é uma doença oportunista, aproveita qualquer oportunidade para entrar no castanheiro”, alerta o professor.

Galho partido com a chuva gelada

Uma das soluções existentes para minimizar os danos e conter as doenças é o tratamento das árvores afetadas, no entanto, as características do castanheiro obrigam a um trabalho específico que deve ser feito por profissionais.

“Essas equipas têm de ser capazes de subir às árvores, muitas vezes com uma motosserra às costas, e proceder à sua cirurgia, ou seja, fazer um corte mais acertado até porque eles esgalharam, não partiram de uma forma linear, isto é muito difícil fazer”.

Um dos problemas deste trabalho especializado é o custo elevado que tem que, olhando para os produtores, muitos deles já de idade avançada, pode ser um problema difícil de contornar.

“Olhando para a fileira da castanha, em que muitos do seus produtores são já de idade avançada, percebemos que vai haver aqui um problema difícil de resolver. As pessoas olham e sentem-se impotentes. Há algumas empresas que fazem esse serviço, são poucas e ainda pouco conhecidas mas o problema é também o custo que isso tem e que pode levar a que muitos não optem por essa via, aumentando o risco de doença que depois se pode espalhar pelos soutos”.

Inovação dá novo alento contra doenças típicas

Uma das doenças mais conhecidas desta fileira é a doença da tinta, uma doença que está no solo e que afeta os castanheiros de forma fatal e que tem levado muitos produtores a optarem pela plantação de outras árvores, como por exemplo o sobreiro ou o eucalipto.

As alterações climáticas, que têm provocado cada vez mais no período de verão um excesso de calor e secura das terras, foram determinantes para o agravamento dos efeitos da doença, afetando cerca de oito mil hectares de soutos.

Enxerto ColUTAD

De forma a combater esta doença, foi desenvolvido pela UTAD um porta-enxerto resistente a esta doença batizado com o nome ColUTAD.

Segundo os especialistas, o clone já foi testado com a colaboração de dezenas de agricultores e é imune à doença que destruiu em 20 anos cerca de um milhão destas árvores em Portugal.

“Este porta-enxerto surge depois de um trabalho com mais de cinco décadas, feito inicialmente na estação de Alcobaça pelo investigador Columbano Taveira Fernandes e com continuidade aqui na UTAD pelos Professores Carlos Abreu, Lopes Gomes e Torres de Castro que fizeram um imenso trabalho para não perderem aquele pequeno castanheiro que veio de Alcobaça, melhorando-o até chegarmos à planta que existe atualmente”, conta o professor José Laranjo.

O clone é um castanheiro híbrido, resultante do cruzamento entre o castanheiro europeu “Castanea sativa” e o japonês “Castanea crenata”. O investigador José Laranjo explica que os clones, depois de plantados, “funcionam como barreira à progressão da doença” e mesmo que a plantação “seja feita em terrenos já invadidos por ela, está provado que o novo castanheiro não morre”.

“A UTAD encontrou, assim, o antídoto contra a doença para ser usado nas novas plantações de castanheiros e, tal como uma pessoa vacinada contra uma doença lhe fica imune, assim acontece com os soutos que recebem estes porta-enxertos”, afirma o especialista.

O clone vai ser colocado nos circuitos comerciais através da Serviruri – Prestação de Serviços Técnicos agrícolas, com quem a UTAD vai assinar um protocolo de transferência da gestão dos direitos comerciais.

“É claro que a UTAD quis defender os seus interesses até porque isto implicou muitas horas de trabalho e investigação, portanto daí a questão de cobrarmos royalties sobre as vendas, esse dinheiro permitirá continuar a investigar nesta área desenvolvendo plantas cada vez mais aperfeiçoadas”.

José Laranjo

Castanha recebe distinção “Portugal 5 estrelas”

Sinal da crescente importância que a castanha tem em Portugal é a distanção “portugal 5 estrelas”, uma distinção que é atribuída depois de mais de 100 mil inquéritos feitos aos consumidores ao longe de quase 5 anos.

Para José Laranjo esta distinção “foi uma surpresa” até porque, confessa, “nem sequer conhecia este prémio”.

Para o professor esta “é uma marca de referência, um certificado de qualidade” que agora pode ser utilizado pelos produtores de castanha transmontana.

Mercado ainda tem falta de castanha

Garantia de um futuro assegurado na fileira é a grande procura que existe por este produto no mercado, sobretudo na Europa onde a produção ainda não é suficiente para a demanda.

“Há muita escassez de castanha no mercado, a Europa é insuficiente em castanha, seja para a indústria seja fresca e, isso faz com que o fruto tenha uma valorização muito elevada. Podemos estar a falar de uma valorização de 50% comparativamente ao custo de produção, por exemplo, o custo de produção de um quilo pode rondar os 1,50 euros, enquanto a sua venda é feita por 2,5 ou 3 euros”.

Este é um fator que tem atraído produtores mais novos dando assim uma esperança renovada ao setor.

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