Consoada, a tradição que se reinventa

A tradição é algo que perdura no tempo mas, e se essa tradição for reinventada? Este foi o ponto de partida para uma viagem gastronómica onde confrontamos uma consoada tradicional com uma da cozinha mais contemporânea.

A primeira paragem que fazemos é no restaurante Castas e Pratos, na cidade de Peso da Régua. Instalado nos antigos armazéns da CP, junto à estação ferroviária, este restaurante aproveitou o esqueleto do edifico, recuperando o interior com pormenores de requinte e beleza que valem inúmeros elogios dos mais diversos especialistas.

À chegada somos recebidos pelo chefe de sala Luís Barros e pelo chefe da casa, Tiago Moutinho que nos dão as boas vindas e nos informam do menu que irá ser servido.

Antes de nos deixar e ir para a cozinha o chefe Tiago tem tempo para uma pequena conversa onde nos fala da reinvenção deste prato.

“A nós, chefes, cabe-nos fazer uma reinvenção dos nossos pratos, o bacalhau com todos, típico nesta região na noite de consoada é também ele base para dar asas à nossa imaginação. Depois, o próprio espaço, a sua arquitetura, implica a reinvenção, desde logo porque o próprio foi reinventado, passando de um armazém para um restaurante”, afirma.

Mexer nestas tradições normalmente é arriscado pelo hábito que elas comportam, no entanto, para o chefe o risco pode ser menor desde que alguns aspetos sejam tidos em conta.

“O risco era grande se alterássemos o sabor mas como temos o cuidado de o preservar o risco é mais reduzido”.

A mesma opinião é partilhada por Luís, o chefe de sala que nos acompanha ao nosso lugar, de frente para uma janela de onde vemos o Douro e os vinhedos da região.

Pouco tempo depois a nossa refeição começa a chegar à mesa, para a entrada o primeiro sabor familiar da época, o polvo, laminado, tal como a batata vitelotte que o acompanha e ainda um molho alioli, acompanhado de um branco do Douro. “No fundo temos todos os sabores tradicionais apresentados de uma forma diferente”, diz Luís.

Depois destes sabores chega o prato principal, uma tela visual cuidadosamente preparada pelo chefe Tiago. Os elementos que identificamos numa ceia tradicional estão lá todos: o grão, o bacalhau, a batata, a cenoura e a couve, numa mistura de texturas que harmonizam na perfeição com um Syrah da Quinta do Ventozelo.

Na sobremesa natalícia há sabores que consideramos essenciais, entre eles estão a abóbora e o Queijo da Serra que, uma vez mais nos são apresentados de forma inovadora. No prato encontramos um vulcão de abóbora, estaladiço no exterior e cremoso no interior, e um gelado de Queijo da Serra que, juntos pelo Porto branco que nos é servido, rematam uma refeição intensa e que nos fez viajar até às memórias de infância com a família reunida à volta da mesa.

“O que importa são os sabores, são eles que nos ajudam a fazer essa viagem à nossa memória porque são também eles que os compõem, o resto, a forma como o prato é apresentado é uma questão de requinte”, afirma Tiago Moutinho.

De Peso da Régua partimos em direção a Tarouca onde vamos à procura da Tasquinha do Matias, um restaurante com um toque familiar e acolhedor, localizado mesmo ao lado da Torre de Ucanha e liderado por Filomena Matias.

Dona de um sorriso contagiante, Mena, como é conhecida pelos locais e pelos seus clientes é a responsável por nos servir uma consoada mais tradicional.

“Na nossa região, no prato da ceia não podem falhar alguns elementos, a posta do bacalhau, as couves, a batata cozida e o grão, tudo isto regado por um bom azeite, de preferência caseiro. Aqui as pessoas ainda procuram mais o prato tradicional, em especial nestas aldeias, é um hábito que as pessoas têm”, afirma.

Chegado à mesa, no prato está lá tudo, a posta de bacalhau, alta e suculenta como manda a regra é ladeada por umas folhas de couve tronchuda que, segundo a cozinheira, “para ser boa tem que levar com umas três geadas em cima para ficar bem tenra”, a batata também ela saída de um terreno da própria, o grão e um generoso fio de azeite a dar o toque final.

O segredo deste sabor, conta-nos a cozinheira, é ser feito no fogo, num pote de ferro de três pernas.

“Nesta noite cozinhamos num pote de ferro no fogo, este é o segredo que confere um gosto especial a este prato. O paladar é completamente diferente de ser cozinhado no fogão numa panela normal”.

A quantidade é bastante até porque, e como manda a tradição, no dia seguinte come-se a roupa velha.

“No dia seguinte fazemos a roupa velha, um aproveitamento deste prato em que aproveitamos tudo o que sobra dentro de uma panela, juntamente com alho picado e uma boa dose de azeite e que vai ao lume a saltear durante algum tempo”, conta-nos Mena.

Para a sobremesa somos presenteados com uma vasta variedade de sobremesas, todas elas bem típicas da quadra. “Nas sobremesas temos o leite creme, a aletria, as rabanadas, as filhoses e o bolo rei, tudo típico da consoada”.

Já bem alimentados, falamos um pouco mais com Filomena, entre as confissões de alguns sonhos que tem para concretizar, falamos um pouco mais do Natal e da magia desta noite e da refeição que acabamos de saborear.

“A magia está na noite, o prato é sempre o mesmo, recordo-me de ser assim já em casa dos meus avós e dos meus pais”, remata.