Douro desepera com falta de mão-de-obra

Numa região em que o número de desempregados ultrapassa os 150 mil, os motores da economia regional, agricultura e turismo, deparam-se com graves problemas de falta de mão-de-obra para as suas atividades.

Em Julho deste ano, o número de inscritos no Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP), nos concelhos pertencentes à CIM Douro, era de 177 mil, segundo dados do próprio instituto.

Na mesma tabela podemos ainda ver que no mesmo mês, as três posições de topo eram ocupadas pelas três maiores cidades da região: Vila Real com 2.874 inscritos, Lamego com 2.187, e Peso da Régua com 1.143. Já na outra extremidade da tabela encontramos Penedono, Freixo de Espada à Cinta e Sernancelhe, todos com menos de 230 inscritos.

É neste cenário que dezenas de empresários, da agricultura e turismo, se têm queixado da falta de mão-de-obra para atividades como a vindima, apanha da maçã e castanha, limpeza ou cozinha, dando apenas alguns exemplos.

Colheitas sobrepostas agravam a situação

O mote foi dado pelo presidente da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, José Luis Correia que, em declarações à agência Lusa, no final do mês de agosto.”Nós temos muita falta de mão-de-obra para a vindima e para a apanha da maçã (…), se alguém está desempregado e quiser ganhar dinheiro durante alguns meses, pode vir a Carrazeda”, afirmava o autarca.

O excesso de calor e consequente falta de água nos terrenos, registados este verão, foram fatores influenciadores da antecipação da época das vindimas, acabando por coincidir com outra atividade, a colheita da maçã.

Estes dois trabalhos agrícolas são morosos e requerem um largo número de trabalhadores, só em Carrazeda de Ansiães apontava-se para uma necessidade de mais “300 a 500 trabalhadores”, afirmou Duarte Borges, produtor e técnico da Associação dos Fruticultores, Olivicultores e Viticultores do Planalto de Ansiães.

Para o fruticultor admite mesmo que essa mão-de-obra “podia ser angariada nas grandes cidades”, no entanto seria também “necessário criar condições para as receber” durante o período que duram os trabalhos, cerca de dois meses no caso da maçã.

Nas vinhas, a falta de pessoal também preocupa, “normalmente trazia 30 a 40 pessoas para esta quinta, hoje trago 8”, diz Rui Sarmento, responsável por um grupo composto por 5 mulheres e três homens.

“A culpa é do rendimento mínimo, recebem dinheiro para ficar em casa sem fazer nada, por isso é que não querem trabalhar”, afirma uma das mulheres do grupo enquanto vindima. “Estão mal habituados, eu também gostava de ficar em casa mas não posso, tenho uma família para alimentar”, conclui a mesma mulher.

Para Paulo, o mais novo do grupo com apenas 17 anos, esta é “uma oportunidade de ganhar algum dinheiro”. Com apenas uma disciplina para concluir este ano, confessa que tem “bastante tempo livre, por isso é melhor trabalhar e ganhar algum do que andar a fazer asneiras”.

“Era bom que andassem aqui mais jovens, hoje em dia eles já não querem vir para a vindima, é pena”, afirma Rui Sarmento. A mesma opinião é partilhada pelo enólogo Paulo Coutinho, “a falta de jovens na vindima não é apenas uma questão de trabalho, é também uma questão cultural”.

Para o enólogo, os vinhos e o turismo estão intrinsecamente ligados, em especial numa região como o Douro. Aos que chegam é vendido um turismo de emoções e sensações mas para Paulo Coutinho “essa forma de receber está em risco, como é que um jovem pode descrever a um turista como é a vindima se nunca trabalhou realmente numa? Temos que experimentar para sentir e aí sim, transmitir a nossa cultura com todo o sentimento que ela nos desperta”.

Para Paulo da Mariana, produtor de maçã da zona de Moimenta da Beira, acentua outro problema que sente devido à falta de gente para a colheita: “tenho 14 hectares de pomar, queria aumentar a produção para também ter mais rendimento mas fico a pensar se será boa ideia porque depois não tenho quem apanhe a maçã e acaba por se estragar”. Este é, aliás, uma questão que se coloca a “vários outros produtores”, remata Paulo, que vai dando instruções ao pequeno grupo de 6 ajudantes, todos eles familiares.

Para José Eduardo Ferreira, autarca do município de Moimenta da Beira, “este problema é grave para a região (…), é como uma bola de neve, falta mão-de-obra porque não há dinâmica económica, e falta dinâmica económica porque não há mão-de-obra que permita as empresas crescer” afirma, mostrando-se de alguma forma surpreendido porque “continua a haver desemprego na região, só que as pessoas procuram empregos numa área diferente de onde ele falta”.

Mão-de-obra vinda do frio

É da Europa de Lesta, terra de invernos rigorosos, que chegam muitos dos trabalhados que por estes dias andam pela região. Vêm em busca de melhores condições de vida e salários mais altos, mesmo que isso implique desistir da carreira de professor para andar na colheita da maçã, o como é o caso de Yuri, um romeno de 36 anos que trabalha num pomar em Moimenta da Beira.

“Lá (na Roménia) trabalhava como professor, aqui estou na agricultura, ganha-se melhor e o trabalho apesar de difícil faz-se bem”, afirma Yuri enquanto despeja mais um balde cheio de maçã. “Conheço muita gente que veio do meu país para aqui, como somos muitos é mais fácil aguentar as saudades de casa”, conclui.

Esta mão-de-obra tem sido essencial para a sustentabilidade da agricultura na região, garantindo que os trabalhos são executados atempadamente. Gustavo Duarte, presidente da Câmara Municipal de Foz Côa afirma que “na agricultura não se tem feito sentir a falta de mão-de-obra porque há no concelho uma comunidade de leste bastante vasta”. Já no que diz respeito a outros serviços mais técnicos, “na área do turismo, por exemplo, onde é necessária outra formação”, aí a falta de trabalhadores já se faz notar.

Restauração e Hotelaria são os mais afetados no turismo

Com a chegada do verão e a época das vindimas o Douro enche-se de gente vinda um pouco de todo o Mundo. Hotéis e restaurantes estão sempre cheios mas a qualidade do serviço prestado pode ser posta em causa pela falta de trabalhadores, em alguns casos trabalhadores que devem ser especializados.

Carlos Cardoso é proprietário de uma pequena unidade hoteleira em Tabuaço, com 9 quartos chega a ter 25 hóspedes a quem é necessário servir o pequeno-almoço e jantar, nesta unidade não se serve almoço, “inicialmente ainda o fazíamos mas a falta de pessoal obrigou-nos desde logo a cortar esse serviço, decidimos prolongar um pouco mais esse serviço e durante a tarde, aos clientes que ficam pela piscina podemos sempre servir uns snacks e outras coisas mais simples”. Para o empresário essa gestão tem que ser bem feita porque a cozinha depende de Madalena, a sua mulher, e dele.

“Às 6 da manhã estamos aqui a começar a preparar o pequeno-almoço, que se prolonga até às 12:30, hora em que habitualmente se termina de arrumar tudo, depois temos que ir ao supermercado e ao mercado quase todos os dias para podermos servir os produtos frescos, acabamos por almoçar já por volta das 4 da tarde, pouco depois é hora de começar a preparar o jantar que só vai terminar próximo da meia-noite. Pelo meio ainda temos que fazer check-ins e check-outs, garantir que os quartos estão bem arrumados, etc”, descreve Carlos, terminando com a ideia de que “assim é difícil aguentar, o sacrifício pessoal e familiar é muito grande”.

Mas não é só na cozinha que falta ajuda, também na limpeza e arrumação se sentem problemas, “todos os anos temos funcionários novos, a sazonalidade não ajuda mas mesmo com um contrato sem termo acabam por ir embora a meio do verão, quando temos mais trabalho”, confessa o empresário.

A mesma ideia é partilhada por David Almeida, gestor de eventos da Quinta Branca e do Lamego Hotel &Life, “ninguém quer trabalhar no verão nem aos fins-de-semana mas neste setor essas são as alturas em que mais precisamos de colaboradores, eu não tenho um dia de descanso desde junho”.

Para o gestor neste momento o problema é a falta de qualificação da mão-de-obra, “agora finalmente conseguimos ter uma equipa mais estável mas muitos deles são de fora, Porto, Santa Maria da Feira, etc. São aqui colocados por uma empresa que contratamos e assim não temos essa preocupação mas nota-se muita falta de qualificação, mesmo nos que chegam aqui vindos das escolas profissionais.”

Empresário de restauração há mais de 20 anos, Carlos Antunes diz que nunca viu “uma situação destas, não há quem queira trabalhar”, diz-nos enquanto se prepara para servir mais uma mesa cheia de clientes. “Hoje em dia é difícil arranjar gente para trabalhar, seja na cozinha seja a servir Às mesas. Depois também era preciso mais formação, recebemos muitos estrangeiros e para falar com eles é muito difícil, às vezes fico com a sensação que a pessoa não vai satisfeita, e se calhar foi porque queria alguma coisa que eu não percebi”.

Quer na agricultura, quer na restauração e hotelaria, muitas vezes o dia é pago em valores acima da média, no entanto outros fatores são mais decisivos. A sazonalidade e o crescimento de trabalho ao fim-de-semana são fatores que muitos apontam como influenciadores na decisão de não querer trabalhar que alguns tomam.

O Douro continua a crescer, quer ao nível das exportações, sinal que há mercado para produzir mais, quer em reconhecimento pela beleza e paixão que desperta a quem o visita, por isso é de prever que nos próximos anos este dilema se mantenha na região.

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