Entrevista: António Filipe, Presidente da Liga dos Amigos do Douro Património Mundial

Apaixonado pelo Douro, António Filipe dedica-se, há mais de 30 anos, à produção de vinhos na mais antiga Região Demarcada do Mundo. Homem de fortes convicções olha para o Douro como uma região afirmada mundialmente mas ainda com margem de crescimento, quer nos vinhos quer ao nível do turismo. Eleito recentemente para a direção da Liga dos Amigos do Douro Património Mundial (LADPM), António Filipe deu uma entrevista exclusiva ao VivaDouro onde o Douro e o trabalho da Liga foram os temas centrais.

Quais são, neste momento, as principais preocupações da LADPM?

Desde logo a primeira preocupação é o cumprimento da nossa missão nas suas várias dimensões, nomeadamente a preservação da designação e a projeção daquilo que são os atributos que valeram, por parte da UNESCO, a atribuição da distinção como Património Mundial.

Todo o nosso trabalho está centrado à volta destas dimensões compreendidas na nossa missão. Queremos fazê-lo como representante da sociedade civil e de uma forma completamente independente e equidistante de todos os poderes. No fundo considero que é isso que confere poderes à Liga, essa equidistância dos poderes quer locais quer nacionais. A Liga está unicamente com a intenção de garantir que aquilo que mereceu o selo da UNESCO possa continuar a ser mantido. Até porque acreditamos que existe aqui muito valor, em especial valor económico e que consideramos que deve ser mantido.

Falta ainda às pessoas da região entender o que significa este selo da UNESCO. O que pode ser feito para mudar esta ideia?

Esse é precisamente um dos grandes desígnios que foram incorporados no plano de atividade desta direção que recentemente entrou em funções e que é a promoção da autoestima e da valorização identitária dos durienses à volta deste tema do património. Efetivamente achamos que é escasso o conhecimento que existe, não só do atributo em si mas do que este representa e de como pode ser transformado em valor.

Há várias dimensões do nosso trabalho, uma delas vem já de direções anteriores e é a formação em escola. Numa primeira fase formação a professores, ministrada por especialistas na área, em conjunto com a UTAD, de forma a garantir que estes professores transmitem aos alunos a informação que lhes permita, primeiro tomar consciência do tema e depois tomar uma posição relativamente ao mesmo. Essa é claramente uma das dimensões.

É importante tomar em consideração que há um aspeto muito específico desta característica de Património, de bem da Humanidade, que a Região Demarcada do Douro tem e que não é muito normal. Se pensarmos, por exemplo nas Pirâmides de Gizé, estamos a falar de monumentos, que podem ser cercados, protegidos, algo bastante diferente do que aconteceu no Douro.

O que mereceu a distinção da UNESCO na região foi esta simbiose, não sempre perfeita, este trabalho dual feito entre Homem e Natureza. Portanto à atribuição deste atributo há uma característica evolutiva. Evolução essa que pode ser boa mas que, no limite, pode também ser má para o próprio estatuto, portanto, o que nós queremos é consciencializar as câmaras, a CIM, os técnicos dos gabinetes de urbanismo, etc, para aquilo que são os valores identitários do Douro em termos de património, de urbanismo, de edificação e até mesmo de construção de vinhas. De alguma forma tentar criar exemplos de boas e más práticas que depois possam consolidar-se num modelo de caracterização daquilo que são os valores da Região Demarcada do Douro.

Portanto, como referi são vários domínios. No plano da discussão dos temas está na nossa mente a organização de uma conferência, no próximo ano, onde poderemos debater alguns deles como o impacto da demografia e das alterações climáticas, por exemplo, porque podem ser razão para alteração do nosso estatuto. Se daqui a 50 anos, devido às alterações climáticas tivermos um Douro diferente, será que vamos manter esta distinção?

Para quem anda no terreno diariamente, essas alterações já se fazem notar?

A experiência profissional que tenho e a informação que temos permite-nos, de uma forma inequívoca, dizer que já há efetivamente uma alteração em parâmetros como o aumento das temperaturas mínimas e máximas, o aumento dos golpes de calor, dos dias com noites tropicais (em que as temperaturas andam acima dos 20º), etc.

É para nós absolutamente evidente que tem havido aqui uma alteração, em especial em termos de temperaturas. Vemos que diversos operadores ou agentes económicos já incorporaram estas alterações. Por exemplo, na agricultura essas mudanças passam por mudar castas mais sensíveis para zonas mais altas. Também a gestão do stress hídrico tem sido alvo de estudos que apontam que é difícil manter as vinhas sem recorrer à rega da barragem da Valeira para cima.

É óbvio que isto preocupa a associação e leva-nos a querer debater estes temas em busca de soluções benéficas para todos e para a região.

Considera que toda a gente tem essa consciência?

Eu diria que existe uma consciência para o problema mas ainda não sabemos a sua dimensão. Se estamos preparados? Acho que não até porque nem sabemos a sua real dimensão. Por outro lado também depende dos agentes económicos da região, as empresas mais estabelecidas, com mais know how, com maiores recursos têm um capital de conhecimento superior ao do lavrador médio. É importante portanto que estas empresas trabalhem próximo dos produtores ao longo de todo o ano e não apensa na altura da vindima, para que lhes possam transmitir conhecimentos sobre as doenças e modos de tratamento, por exemplo.

Essa consciência resulta então do conhecimento acumulado dos lavradores com os estudos científicos que vão sendo feitos nos gabinetes?

Precisamente. Mas também organizações como a ADVID que tem uma reputação incontestável nacional e internacional incontestável e um capital de conhecimento muitíssimo bom e que devem estar aí para ajudar nestes processos de transformação.

Dando um exemplo de como nos podemos articular neste triângulo (empresas, instituições e produtores), nós lançamos à ADVID o desafio de criar um livro de boas práticas na construção de muros nas vinhas, não só do ponto de vista da agricultura mas também para a biodiversidade. Fomos alertados para um problema que é o facto de os muros estarem a ser demasiadamente bem construídos, com as pedras muito certinhas. Isto, numa zona como o Vale do Tua está a ser prejudicial para o pássaro da vinha, o Chasco-preto que encontram abrigo e alimento nesses muros.

A UNESCO alertou contra a construção da barragem Foz Tua. Qual a posição da Liga perante esta obra?

A posição da Liga sobre essa matéria é clara, a barragem não devia ter sido construída e a UNESCO também foi bastante clara quanto a essa matéria. Tendo sido construída resta-nos garantir que os danos potenciais são mitigados.

Há danos a vários níveis, desde logo a luz de uma central elétrica à noite e a influência que tem na fauna e flora locais, a questão da turbinagem da água, o barulho, a forma como as linhas de muita alta tensão saem da central e atravessam o vale, a própria qualidade da água pode estar em causa. Basta ver que nós hoje, em certas alturas do ano não temos sequer um rio mas uma sucessão de lagos e isto levanta questões com a qualidade da água e o impacto da lixiviação em águas paradas e a sua contaminação por adubos e outros produtos. Tudo fatores aos quais devemos ter a máxima atenção.

A verdade é que a barragem está lá e, aquilo que temos que garantir, é que minimizamos os danos. Esse é também um dos papéis da Liga, de alerta e prevenção para este tipo de agressões.

No fundo podemos dizer que existem dois tipos de agressões. As externas, como são as questões da barragem, do gasoduto ou mesmo da mina de urânio a céu aberto em Retortillo e outras macro questões. Estas serão as mais mediáticas, as que suscitam maior interesse da opinião pública.

Contudo há um vasto conjunto de micro agressões que vão sendo feitas ao património dentro da própria região, fruto de mal entendidos e políticas muito paroquiais por parte de algumas autarquias, em especial aquelas que não se vêm integradas dentro de um bem maior.

São, portanto, um conjunto vasto de agressões de que o património vai sendo alvo. O somatório de todas elas pode comprometer a distinção.

Falou na relação da Liga com as câmaras a CIM e outras instituições. Como acha que estes atores vêm a própria Liga?

Eu não sei como ela é vista mas espero que seja vista como um parceiro, um parceiro que está equidistante a todos e, nesse sentido, não nos importamos nada de ser usados como plataforma de diálogo, de promover e divulgar a informação.

Um dos projetos que a Liga tem neste mandato é tentar criar uma base de dados temática da região. Acreditamos que o turismo e o enoturismo são essenciais para a região até porque podem ajudar a compensar alguns dos problemas que enfrentamos. Por isso queremos ir ao encontro daquilo que as pessoas procuram, seja o turismo religioso, as visitas aos miradouros, etc. O turista não vê a diferença entre a Régua e Lamego, por exemplo, para eles não há barreira e é também assim que nós devemos olhar para a região.

Eu compreendo que o estatuto de Património Mundial pode chocar com os interesses das autarquias porque efetivamente promove algum tipo de constrangimentos. Não só na zona de património mas também nas Zonas de Proteção Especial (ZEP) e aí a Liga também tem um papel importante para ajudar a contornar alguns constrangimentos que as autarquias enfrentam.

Acima de tudo gostava que vissem a Liga como um parceiro equidistante de qualquer cor partidária e que está aqui para ajudar, sempre na defesa e na preservação deste bem que é o Douro Património Mundial.

O Douro atrai cada vez mais especialistas que acabam por promover a região arrastando milhões de turistas. Está o Douro preparado, física e humanamente, para este fenómeno?

É uma bela questão para a qual não tenho uma resposta concreta.

Mais uma vez falamos de um processo evolutivo. Olhando 20 anos para trás percebemos que muita coisa está diferente, muita coisa melhorou, apareceram mais hotéis e restaurantes, etc.

O que eu acho é que tudo deve ser feito tendo em conta o fator autenticidade, até porque aquilo que as pessoas procuram é uma experiência. Desde que consigamos manter esta lógica de que é algo único e especial, e que não está ao alcance de todos então, estamos no caminho certo. Este processo tem é que ser feito sem que se altere o ADN da região, seja na dimensão das construções, dos materiais que se usam, dos métodos de plantação de vinha, etc. Se tivermos essa preocupação de manter a autenticidade e mitigar os efeitos negativos do desenvolvimento, porque também os há, considero que o Douro terá o futuro garantido. Se o caminho for o da massificação é um caminho fácil para esgotar o recurso que temos. Passo dar-lhe um exemplo de uma viagem que fiz recentemente ao extremo oriente, a um local com uma beleza absolutamente fantástica mas onde ninguém toma banho no mar porque está cheio de plástico e detritos, eu pergunto-me como é que uma zona assim será ainda apetecível daqui a 10 anos? Isso pode acontecer se nós optarmos por esse caminho.

Mas é um caminho que o Douro está a fazer?

Podia estar a acontecer mais. A verdade é que as autoridades têm tido o cuidado e a preocupação de não permitir que vamos pelo caminho da massificação. As limitações que têm vindo a ser impostas têm ido nesse sentido agro, é obvio que se pode fazer sempre mais.

Os vinhos do Porto e Douro recebem cada vez mais prémios e distinções de nível internacional. Podemos dizer que a região está afirmada a este nível?

É bom ter prémios mas eles não pagam os salários, é preciso que depois isso tenha uma expressão ao nível do valor.

Globalmente podemos dizer que isso se tem traduzido num acréscimo de valor para a região, em especial no que diz respeito aos vinhos DOC Douro que tem aumentado o seu negócio a um ritmo superior aquele que o Vinho do Porto desce, combinando os dois fatores podemos dizer que estamos a crescer.

Mais uma vez temos aqui o fator de termos algo especial. Produzir uvas na RDD custa à volta de 0,70€ por quilo, em outras regiões custa 0,10€, por isso, se queremos competir pelo valor então vamos perder.

Então teremos que nos destacar pela qualidade?

Sim, pela qualidade e pela história que temos para contar. Uma pessoa ligada ao mundo dos vinhos, a uma das casas de maior sucesso dizia que, para algo ser valioso precisa de ser muito bem feito, escasso e com uma história para contar e eu considero que esta premissa deve ser aplicada na nossa região.

No mundo há vinho a mais, comparativamente ao consumo, há também diversas alterações políticas e religiosas que limitam por exemplo, o numero de países para onde conseguimos exportar, por isso o desafio para os nossos vinhos é grande e temos que nos diferenciar dos demais, chegando à cabeça e ao coração do consumidor.

Os números mais recentes apontam Portugal como o maior consumidor de vinho aqui produzido, em termos de valor, no entanto esse crescimento está muito ligado ao turismo e ao vinho que os turistas aqui consomem. Falta ainda alguma consciencialização para que consumamos mais daquilo que produzimos?

Isso tem mudado de uma forma radical. É verdade que esse valor está ligado ao crescimento do turismo mas não foi aí que começou.

Há aqui um trabalho que tem vindo a ser feito por diferentes atores como a comunicação social, por exemplo, com o seu interesse por este produto. É hoje comum ver as pessoas a comprar revistas e jornais para verem os vinhos que ali são apresentados e comentados e isso acaba por influenciar a decisão do consumidor, que está cada vez mais capacitado para fazer as suas escolhas.

É mau que o Vinho do Porto tenha vindo a decrescer mas é importante valorizar o produto. Não podemos permitir que num ou noutro país, fruto do poder negocial do intermediário, o preço de venda seja espremido ao máximo reduzindo ao mínimo as margens do produtor. Isso é um negócio que não interessa e, se se perder é mau mas não é assim tão mau.

E a história do Douro vende?

Eu diria que algumas sim mas, para a maior parte das pessoas não.

A título de curiosidade dou-lhe um exemplo, recentemente pedi um levantamento da quantidade de muros existente na região e o somatório dá qualquer coisa como o equivalente a 3,5 pirâmides de Quéops, esta é uma curiosidade que podemos usar como argumento de venda.

Depois temos a nossa história que é fabulosa e que não temos que inventar nada.

As gerações mais novas são um público ao qual o Vinho do Porto tem que estar cada vez mais atento?

Sim, é essencial, tem que haver uma renovação dos consumidores e isso é um desafio que a região tem.

Eu acredito que os nossos jovens, apesar de viverem num mundo cada vez mais digital, procuram também cada vez mais experiências diferenciadoras.

Efetivamente acho que não fizemos tudo o que era necessário para atrair um consumidor mais jovem, sobretudo na apresentação e na associação do seu consumo a momentos de grande solenidade. De qualquer maneira acredito que, quando o momento chegar, estes jovens serão consumidores até porque os nossos vinhos são produtos de inegável qualidade.

Não podemos tentar competir em termos de imagem ou marketing com as grandes marcas de bebidas brancas, por exemplo, temos é que encontrar o nosso caminho para chegar a essas gerações e, quando elas tiverem capacidade de decisão o ideal é que tenha os nossos produtos no seu top of mind.

A nossa estratégia tem que ser diferente, mais focalizada não fazendo algo igual para todos.

Do programa com que esta direção foi eleita para a Liga, quais os principais pontos que gostaria de destacar?

Para este ano temos uma série de eventos que já estão programados. Um deles é trabalhado em conjunto com a CCDR-n, o “Somos Douro” e para o qual existem já uma série de iniciativas pensadas para colocar no terreno.

Temos também um protocolo a ser desenvolvido com a ADVID que para nós é muito importante.

A organização da conferência de boas e más práticas de urbanismo na região. Temos uma a conferência anual sobre as ameaças ao estatuto de Património Mundial nas suas diferentes dimensões: alterações climáticas, demografia, economia do vinho, etc.

Gostaríamos também encontrar alguns mecanismos para permitir às pessoas identificar e denunciar potenciais más práticas na região, de uma forma rápida e simples.

Nos próximos dois anos pretendemos também arranjar forma de promover as boas práticas e isso pode passar pela criação de um selo de qualidade de projeto amigo do Alto Douro Vinhateiro, a ideia não é premiar a excelência mas acima de tudo a consistência de fazer bem e de fazer de acordo com as regras que melhor defendem o nosso estatuto.

Na sequência da atribuição do grau Doutor Honóris Causa ao Presidente da Junta da Galiza, pretendemos fomentar ainda mais a nossa ligação ao povo galego enaltecendo o grande e positivo contributo que aquele povo tem dado para a região do Douro.

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