Falta de mão-de-obra prejudica vindimas

Este ano o Douro, para lá do problema da quebra de produção viveu um outro problema, a falta de mão-de-obra para as vindimas, havendo mesmo quem aponte para uma quebra de 40% no pessoal disponível.

É um facto que o interior está cada vez mais despovoado e quem fica são os mais idosos, que já não têm capacidade para dar resposta às necessidades que a região tem. Juntando a isto o início tardio da campanha deste ano levou a que muitos já tivessem saído para as campanhas da maçã no estrangeiro onde os rendimentos são maiores.

Carlos Nogueira é empreiteiro agrícola, fomos encontrá-lo na Quinta de Avidagos, uma das propriedades onde tem pessoal a trabalhar. Os largos anos de experiência que tem fazem-no encarar este problema sem surpresa e considera mesmo que, no futuro, o problema será ainda maior.

“Já no ano passado tivemos dificuldades, este ano está a ser pior e no futuro o problema será ainda maior”, afirma à nossa reportagem.

Justina Teixeira

Também Justina Teixeira, no mesmo ramo, confirma este cenário adiantando desde logo uma causa que tem vindo a identificar. “Nota-se realmente uma falta grande de pessoal para trabalhar. Um dos problemas que identificamos é a recuperação da construção civil que acabou por atrair de volta muitos trabalhadores. Começamos a notar isto ao longo do ano, quando a construção civil caiu o pessoal veio para a agricultura e agora com a recuperação estão a fazer o caminho inverso, porque ganham melhor e têm melhores condições”.

Também nas adegas este problema é notório. João Monteiro é proprietário da Quinta do Beijo e este ano tem tido dificuldades em encontrar funcionários, em especial para o trabalho da adega.

“Aqui nós sentimos mais a falta de pessoal na adega. Normalmente, para o trabalho no terreno o caseiro vai arranjando gente, na adega o trabalho é mais pesado e este ano começamos a sentir esse problema.

Aproveitamos a oportunidade para renovar o nosso pessoal e contratar pessoal mais jovem mas isso obriga-nos a dar-lhe formação o que implica investir algum do nosso tempo na sua formação. Contudo isto não é suficiente”.

Na adega de Sabrosa somos recebidos por Natércia Veiga que nos confirma a existência deste problema. “Também aqui na adega notamos essa quebra. Todos os anos temos várias pessoas que vêm aqui candidatar-se a um lugar para trabalhar nas vindimas, este ano tivemos que procurar essas pessoas e tivemos muita dificuldade em preencher as vagas que tínhamos”.

Apoios sociais e desertificação são as causas mais apontadas

João Monteiro

“São diversos os fatores a apontar que nos fizeram chegar aqui, um deles são os apoios do Estado, conheço vários casos de pessoas que podiam estar a trabalhar mas preferem ficar em casa a receber o RSI. Outro fator é o êxodo a que a região tem vindo a assistir, a nossa população está envelhecida e não sei se daqui a 10 anos teremos gente aqui para viver e trabalhar”, afirma João Monteiro.

Justina Teixeira subscreve esta ideia, contudo alerta que os apoios sociais são necessários para muita gente. “O RSI é um pau de dois bicos, é necessário para quem o recebe mas depois as pessoas acomodam-se e acabam por não querer trabalhar. Há um problema grave que é a subsídio-dependência. Nós colocamos anúncios em quatro centros de emprego e não recebemos nenhuma resposta”.

Regressando à conversa com Carlos Nogueira, o empreiteiro encontra outras questões que acredita serem a causa deste problema.

“Há uma diferença muito grande entre o pessoal que é da vinha e o pessoal que está nas adegas, eles têm direito a água, pequeno-almoço, almoço, etc. Nós andamos aqui, de sol a sol, sem condições, muitas vezes não temos água se não trouxermos garrafas congeladas para aguentar durante o dia, temos que trazer a nossa comida de casa.

Há equipas que vêm de Resende, ou de outras localidades longe daqui, que saem de casa às 5 da manhã, para começarem a trabalhar às 7, descansamos uma hora para almoço e acabamos o dia às 5 da tarde, com este sol não é fácil, é um trabalho árduo. Temos que gratificar um pouco mais quem aqui trabalha. Não entendo porque é que acabaram com algumas tradições das vindimas, como a alimentação, por exemplo. É certo que é complicado para um empreiteiro ter logística para alimentar todo o seu pessoal nas diversas quintas onde as equipas estão colocadas mas, porque não contratar com os proprietários o fornecimento da alimentação? Assim o pessoal tinha uma refeição quente, seria mais um ponto para os atrair.

Ainda no outro dia falava com o responsável desta quinta para organizarmos uma pequena festa no último dia de vindimas, com um pequeno lanche para os trabalhadores e a entrega do ramo, são este tipo de tradições que animavam o trabalho e que se foram perdendo e que ajudam a que as pessoas se sintam valorizadas. As pessoas esquecem-se que é daqui que nasce o vinho e, se as vinhas não forem bem tratas e a colheita não for bem efetuada o vinho não pode ser bom, mas para isso precisamos de ter pessoas motivadas”.

Falta de pessoal poderá rondar os 40%

Carlos Nogueira

“Neste momento temos cerca de 120 pessoas a trabalhar, o ideal para que tudo corresse sem problemas seriam umas 200”, afirma Justina Teixeira, acrescentando que o problema é ainda maior devido às faltas do pessoal contratado, “temos dias em que nos faltam 40 pessoas, isto é um problema, porque as equipas ficam definidas no dia anterior e quando chegamos para trabalhar no dia seguinte não temos gente, sem aviso prévio, o que nos obriga a reduzir o número de pessoas por equipa com todas as implicações que isso tem”.

“Ao longo da vindima temos recebido diversos contactos de pessoas que tinham o serviço já contratado mas que o empreiteiro com quem iriam trabalhar não conseguiu pessoal para responder às necessidades. Há vindimas que viram o seu início adiado e outras que pararam a meio por falta de pessoal. Temos recusado inúmeros pedidos que temos vindo a receber”, continua a empresária.

Para evitar estas faltas, Carlos Nogueira instituiu um prémio de assiduidade aos seus trabalhadores, “quem trabalha comigo recebe um prémio de assiduidade, as pessoas têm que se sentir gratificadas pelo trabalho e, se elas não faltam, eu tenho que agradecer. Na vindima o trabalho é muito apertado, temos pouco mais de um mês para o realizar e este ano o tempo até tem estado bom mas há anos em que chove e faz frio”.

Centros de emprego e redes sociais são pontos de recrutamento

Com o evoluir da tecnologia surgem novas plataformas para oferecer e procurar trabalho, no Douro muitos recorrem aos centros de emprego mas este ano também às redes sociais, contudo, os resultados esperados não foram os mais satisfatórios.

Natércia Veiga

“Usei as redes sociais para procurar pessoal e o resultado foi o que eu esperava, recebi inúmeros contactos de gente de fora da região, mesmo da zona de Lisboa, por exemplo, mas levantava-se um problema, a logística. As pessoas não podem ir e vir todos os dias para casa, por isso precisamos de sítio para as alojar. Eu costumo dizer, em tom um pouco irónico, que os dormitórios de pessoal que hoje foram remodelados para o turismo, ainda vão servir para alojar imigrantes que teremos aqui para colmatar a falta de mão-de-obra que se verifica na região. Ou pensamos em remunerar e incentivar mais estas gentes ou vamos perder toda a gente”, afirma Carlos Nogueira.

Por sua vez, Justina Teixeira recorreu às duas plataformas, sem que o resultado fosse diferente.

“Este ano colocamos uma série de anúncios de emprego, contactamos diversos Centros de Emprego e procuramos casas para alojar os nossos trabalhadores deslocados mas mesmo assim as pessoas não querem, ou porque o trabalho é pesado, ou porque recebem algum apoio do Estado e não querem ter trabalho em cancelar esse apoio para depois o pedir novamente, se esse processo fosse mais simples podíamos ter mais gente”.

Mais novos podem não ser a solução

“Há adolescentes que já abandonaram a escola, felizmente cada vez são menos, e que podiam vir trabalhar para a vindima mas também não querem fazer este trabalho”, afirma Justina.

Já Natércia Veiga, da adega de Sabrosa diz-nos que “os trabalhadores antigos tinham um ritmo de trabalho que os jovens de hoje não têm. Depois há a questão dos apoios sociais aos quais as pessoas se acomodam”.

Carlos Nogueira é ainda mais incisivo, “antigamente os jovens ainda vinham para a vindima mas hoje em dia, com a fiscalização tão apertada que existe isso já não acontece, já não vemos um miúdo de 15 anos vir trabalhar ao fim de semana para ganhar algum dinheiro, se somos apanhados as multas são elevadas. Porque é que esse miúdo com 14, 15 anos pode fazer uma novela ou jogar futebol mas não pode vir trabalhar uns dias aqui ajudando mesmo a família com um maior rendimento em casa?”.

Contudo, o empreiteiro aponta algumas soluções para o problema. “Temos de pedir às câmaras municipais, às juntas de freguesia e à Segurança Social que deixem trabalhar as pessoas. Podem dar o Rendimento Social de Inserção (RSI) à vontade mas, nesta altura, aqueles que recebem e podem trabalhar, deviam ter a possibilidade de suspender esse apoio e retomar no fim do trabalho. Não diria que fosse algo obrigatório mas devia ser incentivado”.

Já João Monteiro aponta outro caminho, “a solução passa por renovar o poder político, trazendo mais jovens para a liderança, que estejam mais atentos a esta problemática”.

Quebra na produção minimizou problema sem solução à vista

A quebra de produção que este ano se verificou no Douro, cerca de 30%, acabou por ajudar a minimizar a falta da mão-de-obra, como nos indica Natércia Veiga.

“A quebra que se verificou este ano na produção ajudou a que este problema não tivesse outras proporções, num ano normal de Douro este seria um problema muito grave, nem consigo imaginar como o poderíamos resolver”.

Ninguém arrisca apontar uma solução única mas as ideias são várias para quem diariamente enfrenta esta questão.

“No futuro vamos ter que repensar a forma como fazemos a vindima, não sei qual será a solução porque a mecanização aqui é difícil mas vamos ter que encontrar outras soluções.

Uma solução podia passar por transferir o dinheiro que a região paga em taxas para o IVDP e este por sua vez investir na região, apoiando os agricultores de forma a conseguirem atrair mais mão-de-obra”, afirma ainda Natércia.

Na conversa com a nossa reportagem Justina Teixeira fala ainda da experiência do passado com a contratação de emigrantes de leste, concluindo que não será esta a melhor solução.

“Há uns anos tivemos diversos imigrantes de leste a trabalhar connosco mas a experiência não foi muito positiva, o trabalho na agricultura é duro e no Douro ainda mais, por isso à primeira oportunidade que tinham iam para outros setores, e depois há a questão da língua e dos costumes que também dificultava a sua integração”.

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