Ferrovia é aposta do Governo

Está previsto que Portugal tenha, dentro de um ano, um Plano Ferroviário Nacional (PFN). Até lá, o grupo de trabalho constituído para a sua elaboração irá ouvir as diferentes entidades regionais com o objetivo de fazer um levantamento das suas necessidades. Garantida está desde já a ligação a todas as capitais e distrito, significando que Vila Real irá ter o comboio de volta.

De acordo com Frederico Francisco, coordenador do grupo de trabalho, “a primeira fase do plano, que agora arranca, dedica-se à auscultação de um conjunto de entidades, estando ainda previstas sessões regionais para levantar as necessidades que o país tem.

Segue-se a redação do plano que, posteriormente, será submetido a uma nova ronda de participação pública e depois será entregue ao Governo, para que o possa aprovar e transformar em lei”.

Frederico Francisco destacou ainda que o Plano Ferroviário Nacional “pretende ligar todas as capitais de distrito e cidades, a partir de 20 mil habitantes”.

Próxima paragem: Vila Real

A 25 de março de 2009 era encerrada a ligação ferroviária entre Vila Real e Régua (Linha do Corgo), pelo Governo então liderado por José Sócrates, alegando falta de segurança na ligação. Esta era a última ligação ferroviária da capital distrital que já em 1990 vira a ligação a Chaves encerrada.

Com o recente anúncio do Plano Ferroviário Nacional, o regresso do comboio a Vila Real é uma certeza. “Para nós é claro que o comboio tem de chegar às capitais de distrito. Esperamos levar o comboio a Vila Real e Bragança porque Portugal não é só Lisboa e Porto”, afirmou o ministro quando questionado pelos jornalistas já depois de assinalar a primeira fase do PNF.

A notícia do regresso do comboio à cidade deixou, entre muitos outros, o autarca Rui Santos bastante satisfeito, afirmando que é a oportunidade “de corrigir um erro com cerca de 30 anos”.

O autarca vila-realense lembrou ainda “que Vila Real é a única cidade universitária do país que não tem comboio e, hoje, a ferrovia é fundamental para o desenvolvimento dos nossos territórios. Temos a expectativa de que esse erro histórico seja corrigido e que no plano ferroviário nacional volte a contemplar Vila Real com a ferrovia”.

Contudo, Rui Santos afirma que a realidade de hoje “é diferente de há 40 anos”, referindo-se à rede rodoviária existente que está “muito bem estruturada”, obrigando a que “a linha ferroviária que venha por aqui a passar tem que ter um grau de sofisticação e de rentabilidade, de comodidade e de rapidez, tendo presente a realidade que hoje temos na área rodoviária. Caso contrário isso seria um fracasso”.

Ambição ministerial

Durante a sessão de lançamento do Plano Ferroviário Nacional, no passado dia 19 de abril, o Ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, assumiu a ambição de “terminar com os voos de menos de 600km na Europa”, o que, em Portugal, significaria a continuação apenas de uma ligação aérea, Bragança – Faro.

“Se nós conseguirmos que entre Lisboa e Porto nós tenhamos uma distância de tempo de uma hora e um quarto, é mudar de forma radical a forma como nós nos organizamos dentro do nosso território”, afirmou o ministro, aproveitando para destacar as melhorias em termos de organização do trabalho, da organização das empresas e das potencialidades que serão criadas.

Para Pedro Nuno Santos, Portugal está muito atrasado relativamente à Europa na ferrovia, um atraso que o governante quer começar a ver recuperado neste que é o Ano Internacional da Ferrovia.

“A ferrovia está a crescer em toda a Europa. O ano 2021 é o Ano Europeu da Ferrovia, toda a gente já percebeu que a ferrovia é um meio de transporte do futuro, não é um meio de transporte do passado.

Ao contrário de muito outros países europeus, ao contrário do nosso país vizinho, que ao mesmo tempo que investia na rodovia, nunca deixou de investir na ferrovia, ao contrário de muitos países europeus e nomeadamente, mais uma vez, de Espanha, nós temos muitos anos de atraso para recuperar”.

A “mochila” da CP

“Temos de sanear a dívida histórica da CP, que é uma mochila que a CP carrega porque o Estado no passado não pagava, mas impunha que a CP prestasse serviço”, afirmou o ministro durante a sessão.

O governante afirmou ainda que “se queremos mais operação e mais comboios em funcionamento precisamos de continuar a reforçar quadros de pessoal da CP”, não esquecendo do material circulante que já foi e está a ser recuperado nas oficinas da EMEF, e aquele que será adquirido.

Para Pedro Nuno Santos o PNF pode significar o alavancar de uma indústria do futuro. “Se vamos voltar a ter ferrovia em Portugal, se vamos expandir a rede, se vamos comprar comboios, não há nada num comboio que não consigamos fazer, não há nenhuma razão para que Portugal se limite a comprar lá fora”.

Requalificação da Linha do Douro prossegue

Entretanto, no final do mês de março a IP anunciou um investimento de 5,9 Milhões de euros para a requalificação do troço entre o Pinhão e o Tua, numa extensão de cerca de 12 quilómetros, com um prazo de execução de 300 dias.

Esta intervenção tem por objetivo a requalificação da infraestrutura de via neste troço e insere-se no Plano de Reabilitação da Linha do Douro que a IP tem em curso.

A IP explicou que estão contemplados trabalhos de substituição integral das travessas de madeira por travessas de betão bibloco e também a substituição de carril e transformação de barra curta em barra longa soldada.

Com esta intervenção, a empresa visa a “melhoria dos níveis de segurança, qualidade, fiabilidade e disponibilidade da infraestrutura”, ainda a “melhoria dos níveis de conforto e comodidade para os passageiros” e a redução dos custos de manutenção”.

Reabertura até Barca D’Alva vai avançar

A reabertura da Linha do Douro até Barca D’Alva será também uma realidade, a confirmação foi dada pela Ministra da Coesão Territorial, em Torre de Moncorvo, numa reunião com a CIM Douro, a IP e a CCDR-N, que serviu ainda para a criação de um grupo de trabalho que irá estudar o modelo de reabertura do troço Pocinho – Barca D’Alva, encerrado desde 1988.

“A ideia é definirmos que modelo queremos para retomar esse troço. O grupo de trabalho vai fazer a análise custo-benefício, vai tentar perceber, com os atores da região, o melhor modelo para essa retoma. “Teremos novidades sobre qual a opção para retomar, qual o investimento envolvido e quais as fontes de financiamento”.

De acordo com o que já foi dado a conhecer a reabertura deverá ter como base o transporte de passageiros, aproveitando o turismo da região, contudo, a ministra não coloca de lado a hipótese também do transporte de mercadorias.

“Estamos a falar de uma região que tem um potencial turístico e produtivo muito importante em várias áreas. É um verdadeiro projeto de coesão territorial, para fomentar o turismo, a agricultura, a agroindústria, e é um projeto que é uma alternativa ao transporte fluvial, que tem as suas limitações pelas condicionantes ambientais”, salientou a ministra.

De acordo com um estudo da Infraestruturas de Portugal (IP), a reabertura deste troço deverá ter um custo de cerca de 47 Milhões de euros, tendo já também o Ministro das Infraestruturas, afirmado o seu apoio à intervenção.

 “Sou a favor da extensão da Linha do Douro até Barca d’Alva. Tem um potencial turístico muito importante. É uma das regiões mais bonitas do Douro”, admitiu o governante em audição parlamentar em 22 de março.

Recorde-se ainda que no início do mês de março foi aprovada, por unanimidade, uma petição para a reabertura da Linha do Douro até Barca D’Alva, apresentada pela Liga dos Amigos do Douro Património Mundial, e que reuniu quase 14 mil assinaturas.

Corgo, Tua e Sabor. As linhas encerradas no Douro

Se até aos finais da década de 80 o comboio era um meio de transporte comum na região do Douro e Trás-os-Montes, os sucessivos encerramentos de linhas a partir de 1988 vieram alterar esse cenário.

Os primeiros encerramentos aconteceram no Douro Superior com a ligação entre Pocinho e Barca D’Alva a encerrar em 1988, ano em que também foi fechada a Linha do Sabor que ligava o Pocinho a Miranda do Douro.

Já na década de 90, em 1991, foi a Linha do Tua que viu parte do seu percurso encerrar por motivos de segurança, após um descarrilamento em Sortes. No início do ano seguinte, em 1992, foi encerrado o troço entre Macedo de Cavaleiros e Bragança. Na Linha do Tua manteve-se em funcionamento o troço de cerca de 60 km entre Mirandela e a foz do Tua, que viria a encerrar definitivamente em 2008 com a aprovação do Programa Nacional de Barragens de Elevado Potencial Hidroelétrico, que levou à construção da barragem Foz-Tua e consecutiva inundação do traçado.

A Linha do Corgo, na sua ligação entre Peso da Régua e Vila Real foi a última a encerrar, em 2009 por motivos de obras, acabando por ser oficialmente encerrada em a 1 de janeiro de 2012.