Linha do Douro: Encerramento gera preocupação

Com as primeiras notícias sobre o encerramento da Linha do Douro na comunicação social começaram a surgir as primeiras reações de preocupação, em especial tendo em conta o encerramento de outras linhas na região como a do Corgo ou Tua.

As primeiras notícias chegaram através da comunicação social e na região do Douro, entre autarcas, comerciantes e população começaram logo a surgir as primeiras reações de receio e preocupação sobre o futuro da mesma, trazendo à memória outros casos como o encerramento da Linha do Tua e da Linha do Corgo que ligava Peso da Régua a Vila Real.

Depois de lançado o alarme a Infraestruturas de Portugal (IP) veio anunciar que o falado encerramento seria temporário e teria em vista uma maior rapidez na conclusão das obras de eletrificação da linha que decorrem desde 2015.

O problema é que, embora sejam só 16 quilómetros que fecham, a linha do Douro tem ainda mais 111 quilómetros que se prolongam até à Régua e Pocinho, que ficam assim desligados do Porto e da rede ferroviária nacional. E mesmo que sejam assegurados transbordos rodoviários aos comboios para o Douro interior, o impacto na procura é sempre negativo porque implica para os passageiros mudarem duas vezes: primeiro do comboio para o autocarro e depois do autocarro para o comboio.

Uma das primeiras vozes que se levantou perante esta possibilidade foi a do presidente da Câmara Municipal de Peso da Régua, José Manuel Gonçalves, que, logo no seu discurso de tomada de posse se mostrou bastante indignado com a situação. “Lamento que não tenha sido dado conhecimento aos autarcas desta intenção que, segundo parece, é para a IP a forma mais fácil de resolver os problemas, mas isto tem implicações muito sérias”, disse. Uma delas, segundo afirmou ainda, “é que, depois de reabrir a linha, é difícil recuperar o mercado que entretanto se perdeu”.

“Além disso, pela experiência que tenho naquilo que vejo das obras ferroviárias, os prazos nunca são cumpridos e os três meses podem ser um ano” concluiu José Gonçalves. Outra preocupação do autarca é com o impacto no turismo pois a época baixa no Douro é cada vez mais curta e há mais gente a querer viajar no comboio por motivos de lazer.

Outra voz que mostrou indignação contra a decisão foi o presidente do município de Mesão Fio, Alberto Pereira afirma-se contra o encerramento, em especial tendo em conta o fluxo turístico da região e o impacto que esta medida pode ter. “Estou cem por cento contra! O Douro está a ter uma procura turística como nunca e essa solução seria muito má, tanto para os turistas como para as populações”.

Segundo o autarca, os trabalhos na linha deveriam acontecer durante as “horas mortas”, evitando o encerramento da linha e evitando os constrangimentos que pode causar.

Operadores turísticos e comerciantes também estão expectantes

Idênticas preocupações têm os operadores dos cruzeiros fluviais, que contam com a via-férrea para os seus pacotes turísticos na região. Matilde Costa, porta-voz das empresas Barcadouro, Rota do Douro, e Tomaz do Douro, teme que esta interrupção – que está prevista para os meses de Inverno – resvale para a Primavera, que é quando iniciam os cruzeiros.

“É muito mau se isso vier a acontecer pois assim não sabemos quando podemos avançar com o material promocional para a próxima época”, disse, lamentando que nem a Infraestruturas de Portugal, nem a CP, lhes comuniquem estas alterações.

“O pior disto tudo é a incerteza. Já estamos habituados a gerir a incerteza, mas esta é mais uma que pode ter impacto negativo porque as pessoas gostam muito da parte do comboio nos programas turísticos”.

O facto de o encerramento estar previsto para uma época de menor movimento faz com que Rui Cardoso não se preocupe em demasia. “Tendo em conta que é época baixa o impacto será menor, nesta altura não há muita gente a viajar, o turismo nesta altura do ano é pouco e são poucas as pessoas que utilizam a linha não sendo em passeio”.

Na praça de táxis de Peso da Régua, apesar das notícias não serem tão negativas como numa primeira fase pareciam ser, Urbano Sousa, taxista há 42 anos, mostra-se ainda um pouco expectante para ver o que realmente irá acontecer. “Segundo o que se sabe, vão ser colocados transportes alternativos mas ainda não se sabe de que forma isso será feito. Os utilizadores do comboio é que são quem mais vai sofrer, dependendo da forma como o transbordo em autocarro será feito a viagem pode ser mais demorada e isso pode ser um problema para quem tenha compromissos marcados”, afirma.

No que diz respeito ao serviço que presta, Urbano Sousa tem uma visão menos derrotista vendo mesmo aqui uma oportunidade de negócio. “As pessoas ao chegarem aqui e verem que o comboio será mais demorado e que têm de fazer os transbordos podem querer fazer a viagem de táxi, juntam-se 3 ou 4 dividindo o custo da viagem, acabando por ser vantajoso para nós”, diz-nos sublinhando que “o transtorno será sempre para as pessoas que se vêm obrigadas a procurar a melhor solução”.

É também a pensar nas pessoas que Fernando Almeida, dono de um quiosque no largo da estação da Régua, expressa a sua preocupação. “Para as pessoas isto vai ser muito chato, muita gente sai daqui de comboio para o Porto para irem a consultas médicas, em especial pessoas já com uma idade avançada. Se são pessoas idosas e com problemas de saúde, certamente que este entra e sai entre comboio e autocarros será uma situação desagradável”.

A procura na linha do Douro tem vindo a aumentar, em grande parte justificada pelo boom turístico. Em 2014 a CP transportou 737 mil passageiros neste corredor, número que subiu para 818 mil em 2015 e para 838 mil no ano passado. As estimativas para este ano apontam para um novo recorde de viagens e de número de passageiros, o que demonstra a importância desta ligação para o Douro.

Reunião em Lisboa trouxe garantias e alguma tranquilidade

Já durante este mês de Novembro os autarcas de Peso da Régua, Mesão Frio e Santa Marta de Penaguião deslocaram-se a Lisboa onde estiveram reunidos com o Secretário de Estado das Infraestruturas, Guilherme d’Oliveira Martins e responsáveis da CP, que asseguraram que o encerramento seria feito apenas por três meses e no período de maior acalmia no movimento. Assim o encerramento da linha ficou planeado para os meses de Novembro e Dezembro de 2018 e Janeiro de 2019.

Da reunião resultou a garantia de que o prazo de encerramento será cumprido à risca não devendo ser ultrapassado e durante o qual será criada uma rede de transporte entre as duas estações com a máxima eficiência e o mínimo tempo possível de transporte.

Outra certeza saída deste encontro é o melhoramento da restante linha, entre Marco de Canaveses e Peso da Régua, estando para breve a fase de avaliação do impacte ambiental, perspectivando-se para início de 2019 o lançamento da respectiva empreitada.

Outra reivindicação da região quanto a este transporte é a ligação a Espanha que poderia permitir uma ligação mais rápida ao país vizinho, não só de passageiros mas, em especial, de mercadorias. Durante a reunião foi dito aos autarcas durienses que esta é também uma preocupação do atual governo e que este é um dos investimentos que irão ser discutidos e definidos em 2018 e que serão incluídos no próximo quadro comunitário.

Para Domingos Carvas, autarca sabrosense, esta deve ser uma das grandes preocupações da ferrovia para a região, a ligação a Espanha. “O encerramento de qualquer serviço na região é um problema e uma preocupação para nós, mesmo que temporário é sempre um transtorno. O facto de estas obras serem feitas em “época baixa” minora os problemas em especial para as pessoas, quando falamos de mercadorias é diferente, aí os constrangimentos podem ser maiores. No entanto temos que pensar que apesar dos problemas no imediato, esta será uma obra favorável para a região. A hipótese de voltar a abrir a linha até Espanha é que deve ser a nossa bandeira, costuma dizer-se que o que trás, leva, mas neste caso eu acho que traria mais do que levaria, ou seja, traria mais gente à região e levaria daqui as mercadorias (trazendo, indiretamente, capital), por isso acho que essa deve ser a nossa luta e esta pode ser uma boa oportunidade para fazermos passar essa mensagem”.

O facto de as informações chegarem a conta-gotas não permitiu ainda às populações e agentes económicos ficaram descansadas quanto a esta solução.

Rui Cardoso, taxista na praça da estação ferroviária do Pinhão desconhecia a possibilidade de encerramento temporário da Linha, “não sabia de nada, nestas coisas nós sabemos depois de acontecerem”, afirmou.

Os exemplos negativos do passado

Muita da exaltação causada por esta decisão da IP em encerrar a Linha do Douro deve-se a outros exemplos de ferrovias encerradas na região.

O abandono da Linha do Corgo teve início ainda durante os governos de Cavaco Silva, com o encerramento do troço entre Chaves e Vila Real em 1990. Em 2009, o troço restante da linha, entre Vila Real e a Régua, foi encerrado para obras, vindo a ser definitivamente encerrado já pelo atual governo no início de 2012, caindo assim por terra a réstia de esperança que ainda existia de ver esta linha recuperada e que muitos defendem como mais um fator de atração turística para a região.

A Linha do Tua é outro exemplo, esta talvez o mais mediático. Ao longo dos anos a linha foi deixada quase ao abandono chegando ao ponto de resultar em diversos acidentes que acabaram por resultar em vítimas mortais. A perigosidade da linha, o custo elevado do seu melhoramento e a mais-valia energética da construção de uma barragem foram os argumentos que levaram ao encerramento desta linha centenária indo contra os desejos das populações que desde sempre cresceram próximas da ferrovia.

Os diversos movimentos criados, as manifestações e abaixo-assinados que foram feitos mostraram-se insuficientes para demover o Governo de José Sócrates de avançar com a construção da barragem Foz-Tua que este ano ficou concluída.