Soldados da Paz na guerra da pandemia

Com a chegada da pandemia Covid-19 a vida nos quartéis de bombeiros mudou drastica­mente, desde o tipo de transportes que reali­zam aos cuidados que agora os novos tempos obrigam.

Marcos Fonseca é Comandante dos Bombei­ros Voluntários de Tabuaço, uma das corpo­rações da região que tem vivido este ano de muitas mudanças com o espírito de sacrifício e entrega que é habitual encontrar nos ‘Solda­dos da Paz’.

Marcos Fonseca – Comandante dos Bombei­ros Voluntários de Tabuaço

“Há um ano atrás alterou completamente aquilo que era a nossa forma de estar e de agir, porquê? Porque além de algum receio que também os profissionais e os operacionais têm obrigou-nos aqui a um quantidade de novas formas de atuar que alteraram aquilo que era o normal funcionamento.

Em primeiro lugar logo no início de março nós fechamos o quartel, ou seja, criamos aqui duas equipas que trabalhavam de quinze em quin­ze dias cada uma e fechamos o quartel. Cada equipa tinha doze elementos que ficavam aqui quinze dias fechados, vinte e quatro horas. Desde logo isto obrigou a um aumento das despesas com os vencimentos e os subsídios que pagamos durante os quinze dias que esta­vam em casa.

Outras despesas que tivemos que suportar foi a aquisição dos equipamentos individuais de proteção, que ao princípio eram extremamen­te caros, toda a gente sabe, as máscaras atin­giram preços astronómicos e não havia álcool gel, tudo que era necessidade que nos obrigou este vírus, esta pandemia, criou-nos aqui, real­mente, bastantes despesas. Nessa altura tam­bém adquirimos um aparelho de higienização das ambulâncias, dos espaços e do próprio fardamento.

Depois a autoridade começou a dar algum equipamento, mas muito pouco. Eu diria que oitenta por cento daquilo que nós gastamos é comprado pela associação”.

A somar ao aumento das despesas, lembra o comandante, houve também uma diminuição da receita com a falta de transporte de doentes a unidades hospitalares e outros.

“Notou-se no princípio uma quebra acentua­da nos serviços, porque deixou de haver fisio­terapia, deixou de haver consultas externas. É nesses serviços que ganhamos algum dinheiro. Continuamos a fazer diálises, e as emergências.

A partir de maio, junho, começamos a abrir um pouco mais o quartel novamente até porque iniciou a época de incêndios e temos sempre mais bombeiros aqui, os voluntários. Não fa­zia muito sentido termos só doze elementos quando eram necessários mais para os in­cêndios. Foi uma reabertura feita com muitas cautelas e que os operacionais respeitaram até porque depois foram surgindo alguns casos em lares e cada saída que fazia obrigava a cumprir todas as regras. Qualquer chamada, qualquer saída, era suspeita. Bastava cair uma chamada e eles tinham que ir sempre equipados.

Nesta fase já voltamos a ter um aumento signi­ficativo de trabalho. As emergências aumenta­ram um pouco e temos feito muitos transpor­tes de utentes que têm que ir realizar testes. Estamos também a trabalhar, em colaboração com a autarquia para ajudar no transporte de famílias que não têm condições para se deslo­car ou para o fazer de táxi, por exemplo.

Não voltamos a fechar o quartel desta vez por­que, apesar de até haver mais casos do que na primeira fase, nesta altura há também uma maior consciência e todos agimos com extre­mos cuidado.

Nós não conseguimos recusar nenhum ser­viço, não podemos recusar nenhum serviço, estamos sempre disponíveis para fazer todo o serviço, portanto não fazia muito sentido ter a porta fechada”.

Vasco Correia – Bombeiros Voluntários de Santa Marta de Penaguião

Em Santa Marta de Penaguião o comandante Vasco Correia assume também que este foi um ano diferente, contudo assume que a cor­poração, apesar do largo número de transpor­tes Covid que faz, tem estado tranquila com a situação, depois de um momento inicial de maiores receios.

“Foi um ano diferente, mas acabamos por ter sempre os nossos utentes que temos que transportar para alguns serviços como a hemo­diálise, por exemplo.

Passamos a ter mais cuidado com a limpeza das ambulâncias, tivemos que adquirir mate­rial que na altura não tínhamos, compramos um aparelho de ozono. Tentamos seguir as re­gras que a DGS nos impõe.

Como estamos sempre na linha da frente, te­mos que ter sempre o máximo de cuidado, e esses alertas foram sempre transmitidos desde o início, as regras para a segurança sempre em primeiro lugar, a segurança dos utentes e a se­gurança dos elementos dos bombeiros.

No início o transporte Covid era um bicho de sete cabeças, adquirimos material desde visei­ras, máscaras, e outros, mas numa fase inicial com alguma dificuldade. As viseiras que utiliza­mos são as viseiras que os trabalhadores agrí­colas utilizavam para trabalhar.

Houve algum receio no início, era tudo novidade, agora estão mais à vontade. Nós fazemos muitos transportes Covid, abrangemos uma área muito grande, levamos pessoas ao Porto, Gaia, Arcos de Valdevez, Vila Pouca de Aguiar, etc.

No início o impacto é grande, uma coisa nova, conversas e notícias na televisão que no fundo assustam um bocadinho as pessoas. Ouvia-se falar em mortes e que o contágio também era grande, aí tinham um bocadinho receio, mas depois com o decorrer dos dias não, fomos percebendo como funcionava tudo isto e fica­mos mais tranquilos. Agora é algo que faz parte do nosso dia-a-dia e aprendemos a lidar com isso”.

Operacionais entre o cuidado e os receios

Entre os operacionais das corporações reina agora um ambiente mais tranquilo depois de a primeira fase ter sido marcada por algum re­ceio face ao desconhecimento da doença.

“Este último ano tem sido um ano diferente, cuidados mais redobrados, a nível de higieniza­ção e desinfeção das ambulâncias também tem de ser muito mais profundas, tem que ser tudo mesmo ao pormenor para evitar contágios tan­to para nós como para os utentes.

Por exemplo, quer seja suspeita Covid, ou con­firmada, nós usamos um fato que nos cobre to­talmente, temos também os cobre-botas para evitar contactos, luvas de cano, etc.

Filipe Almeida – bombeiro da corporação de Santa Marta de Penaguião

Sempre que tocamos em alguma coisa, prin­cipalmente no pré-hospitalar, usamos sempre dois pares de luvas, ou seja, o primeiro par para tocar no utente e tratar, estabilizar, o quer que seja, depois do doente estar estável tirarmos essas luvas com o devido cuidado e calçamos um segundo.

Também adquirimos um equipamento para desinfeção, uma máquina de ozono, que tem de estar um período de tempo fechado, e de­pois tem que ser tudo arejado e ventilado, por­que aquilo é um cheiro muito tóxico.

Infelizmente há muita gente assintomática, que não tem qualquer tipo de sintomas, e que pode estar infetada, então temos sempre que ter todos os cuidados.

Isto foi tudo uma novidade, antes de isto tudo começar tivemos uma formação, como abor­dar e lidar com os doentes, que foi uma mu­dança radical, Foi tudo muito diferente, isto foi uma volta de 180 graus”, conta-nos Filipe Almeida, bombeiro da corporação de Santa Marta de Penaguião.

José Luis e António Queirós – bombeiros da corporação de Tabuaço

Em Tabuaço o bombeiro António Queirós soma já mais de 30 anos de serviço, para este operacional a pandemia trouxe receios que nunca tinha sentido antes. Confessa também que os cuidados que agora se tornaram habi­tuais se irão manter no futuro.

“Eu tenho 30 anos de serviço e já passei por muita coisa, já perdi colegas bombeiros, mas nunca senti tanto medo como sinto agora, as­sim que o telefone toca ficamos logo a pensar, e não é só por nós, é muito pelas nossas famí­lias em casa.

O equipamento é seguro, todos sentimos isso mas as falhas acontecem, somos humanos e pode acontecer a qualquer um, há sempre comichão, há o suor, os óculos embaciados… Basta um gesto “em falso” e todo o cuidado se perde.

Qualquer saída obriga a que usemos o equi­pamento, apesar disso não atrasamos o socor­ro, vestir é rápido, demora mais a retirar, por exemplo, porque temos que ter muito cuida­do.

É muito difícil, se as pessoas vestissem o fato por duas horas, sem ir fazer nenhum serviço, só estar aqui connosco, tenho a certeza que to­dos teriam mais cuidado.

Estes hábitos que agora adquirimos quanto aos cuidados a ter e às proteções certamente que vamos manter depois de tudo isto passar até porque já percebemos todos que isto nos protege não só deste vírus como de tantos ou­tros que assistimos diariamente como as gripes ou tuberculose, por exemplo

Voluntários responderam à chamada

Para além dos profissionais, todas as corpo­rações contam com um vasto número de vo­luntários, em especial durante o pico de traba­lho que acontece com os incêndios no verão. Apesar da pandemia e das alterações que as corporações foram obrigadas a fazer, este ano os voluntários não deixaram de aparecer nos quarteis.

“Na realidade não notamos um decréscimo dos voluntários, pelo menos aqui não notei, pelo contrário até porque estavam muitos ser­viços fechados e não havia aulas. Também foi um verão mais calmo, não houve grandes in­cêndios como normalmente há todos os anos. Notei mais nesta fase em que começou a haver um aumento muito grande de casos, comecei a notar que havia algum receio da parte de al­guns voluntários, principalmente aqueles que têm filhos pequenos e que têm familiares mais idosos. O que eu lhes digo, e tento fazer isso também, se nós tivermos o máximo de cuida­do a possibilidade sempre minimiza”, conta-nos o comandante Marcos de Tabuaço, uma ideia partilhada em Santa Marta de Penaguião.

Vacinação gera indignação

Quando foram conhecidas as primeiras listas de prioridades na vacinação contra a Covid-19, saltou à vista a não inclusão dos bombeiros. Depois do protesto das corporações as listas foram revistas e os operacionais foram inte­grados, contudo, apenas uma parte deles será vacinada nesta primeira fase.

Apesar da indignação, em Santa Marta de Penaguião, o comandante Vasco Correia olha para a polémica com alguma tranquilidade.

“Há um ou outro que se preocupa, que é mais velho, mas o alarido não foi grande. Apesar de no início não nos englobarem nos prioritários, quando o Presidente da Liga reivindicou a nos­sa posição fomos colocados na lista”.

Já em Tabuaço a revolta pela situação não fica calada e o comandante local é o primeiro a mostrá-la.

“Na minha opinião, fomos completamente desvalorizados, porque na verdade, e acho que isso toda a população reconhece, se há alguém que está mesmo na linha da frente são os bombeiros, os bombeiros são aqueles que são os primeiros a chegar, mesmo antes dos operacionais do INEM.

Eu não sou da opinião que os bombeiros fos­sem à frente dos enfermeiros, não, os profis­sionais de saúde que são aqueles que lidam com mais casos, naturalmente tinham que ser os primeiros, mas logo a seguir, porque quan­do há uma emergência o primeiro a chegar é o bombeiro, estaríamos nós.

E esta desvalorização que houve da parte da Task Force, ou da comissão, ou quem está a fazer, ficou muito mal e deixou os bombeiros muito desanimados. Ainda agora vinha a falar com um comandante de outra corporação e quase dá vontade de dizer que vamos parar en­quanto não formos vacinados, mas obviamen­te que isso não faz sentido nenhum, quem iria sofrer com isso seriam as nossas populações.

Temos esse sentido de responsabilidade, por­que se isto fosse desentupir canos ou limpar estradas, aí parava. Agora, não é, porque a pes­soa que está do outro lado, também pode ser um dos políticos, que tenha um acidente e os bombeiros vão lá, não tem culpa nenhuma. Os bombeiros vão sempre, quer sejam ricos quer sejam pobres, sejam de que religião forem ou de que raça forem, os bombeiros vão sempre. Eu fico revoltado como é que é possível que na­quela listagem não constou os bombeiros.

Não faz sentido não vacinar os bombeiros para vacinar diretores dos lares, não faz senti­do. Com uma agravante, é que os bombeiros só vão ser vacinados cinquenta por cento. Cinquenta por cento, o que deixa para nós, comandantes, o encargo de escolher quem é que vai ser vacinado ou não. Para mim, como comandante dos bombeiros, são todos iguais, os profissionais e os voluntários, agora como é lógico que os profissionais, que estão no dia-a-dia, têm mais responsabilidade, e estão mais suscetíveis de contrair, estão mais perto. Mas os voluntários também.

O serviço, e isso ficou provado no ano passa­do com aquelas equipas que nós fechamos no quartel, é muito pesado para quem estiver a fazer, nós não conseguimos fazer o serviço todo com trinta elementos, não conseguimos. As pessoas também precisam descansar. Isto criou logo aqui uma desestabilização enorme. Outro problema de tudo isto é que já se regista um atraso na vacinação, já começou, mas com alguns dias de atraso”.

Também entre os operacionais a revolta é se­melhante, como explica o bombeiro Queirós à nossa reportagem.

“Ninguém consegue explicar que nós não so­mos a primeira linha, quando o doente chega ao hospital ele já teve em contacto connosco. Critico a Liga e a Federação porque não nos de­fenderam, no verão levaram-nos para Lisboa por causa dos incêndios e agora deviam ter feito o mesmo por causa da vacina.

A minha grande angústia, e aí o nosso coman­dante aqui em Tabuaço teve sempre muita atenção a isso, é a chegada a casa, nunca sa­bemos quando levamos o vírus connosco. Há esse receio, felizmente o nosso comando sou­be acautelar essa situação com o equipamento que nos forneceu, mas é sempre um risco”.

Autarquias apoiaram as corporações

Papel importante ao longo deste ano na vida das corporações tiveram as autarquias que as apoiaram com a aquisição de material de pro­teção, por exemplo.

Vasco Correia afirma que “houve apoio da au­tarquia em especial na aquisição de máscaras, fatos e outros equipamentos de segurança, as­sim como também houve algumas empresas do concelho que contribuíram com algum equi­pamento e álcool gel, em especial na primeira fase”.

Em Tabuaço o sentimento em relação à autar­quia é semelhante, nas palavras do comandan­te da corporação a relações existente com o município “é muito boa”.

“Nós temos uma excelente relação com a autar­quia, desde há muito tempo, e felizmente tam­bém não temos tido necessidade de nenhum pedido extraordinário de apoio. Mal ou bem, nós temos, de alguns anos para cá, conseguido gerir isto de uma forma equilibrada e sustentável, não temos tido necessidade de recorrer à autarquia mas sabemos perfeitamente que se for necessá­rio que eles estão aí para nos apoiarem, para nos ajudarem”.

A palavra dos autarcas

Desafiamos os autarcas de Tabuaço e Santa Marta de Penaguião a deixarem uma mensagem aos operacionais das corporações dos seus concelhos.

Carlos Carvalho – Presidente da Câmara Municipal de Tabuaço

As corporações de Bombeiros são um dos pilares da nossa sociedade. Um conjunto de mulheres e homens que através do voluntarismo, do sacrifício, da combatividade, do sentido cívico, simbolizam o que de melhor devemos representar.

Como é lógico numa realidade que tanto tem sofrido com a centralização constante dos Governos e a consequente perda de população, com todas as dificuldades que daí decorrem, os Bombeiros revestem-se de uma importância ainda maior. E é isso que acontece em Tabuaço onde a Associação tem um papel fundamental.

E vai nesse sentido a mensagem que enquanto representante do Município pretendo deixar.

Em primeira instância exaltar o enorme trabalho de proximidade e humanidade que têm vindo a levar a cabo há mais de 85 anos! Em segundo, pedir encarecidamente que assim continuem, desta forma completamente altruísta, a colocar o seu total empenho

na melhoria constante da vida dos outros e por fim, manifestar a nossa total e inteira disponibilidade em tudo o que necessário seja no sentido de permitir facilitar o que diariamente fazem!

Numa perspetiva de parceria, de estar lado a lado em tudo o que possa potenciar o bem que sustenta a razão de existir destas instituições.

 

 

Luís Machado – Presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião

Luís Machado – Presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião

O concelho de Santa Marta de Penaguião tem sido exemplar no combate à pandemia Covid-19.

A qualidade, competência, rigor e sucesso deste combate deve e muito às instituições e entidades concelhias envolvidas nesta luta sem tréguas.

Os nossos bombeiros, verdadeiros guerreiros, têm tido um comportamento solidário, um desempenho profissional e uma dedicação humanitária verdadeiramente extraordinários.

Desde da primeira hora e sempre na linha da frente, disseram sempre PRESENTE.

A todas e a todos os Bombeiros Voluntários que servem nas nossas Corporações e que são o garante do bem estar e segurança dos penaguienses o nosso MUITO OBRIGADO.

O Município de Santa Marta de Penaguião ficar-vos-á eternamente reconhecido e agradecido.

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