“A Linha do Douro”

Por Luís Braga da Cruz, Engenheiro Civil

A rede ferroviária nacional tem uma estrutura muito determinada pela Geografia física do nosso território e pela dispersão demográfica da população. No litoral persiste hoje uma maior densidade ferroviária por aí se concentrarem 80% dos portugueses.

Com o despovoamento do interior a rede ferroviária tem contraído por desclassificação de linhas consideradas sem procura, mas que há anos não eram renovadas.

No que respeita à configuração da rede propriamente dita, também havia diferenças entre o Sul e o Norte. Nas zonas mais planas, como no Alentejo, a rede era mais malhada, enquanto a Norte tinha caracter mais radial a partir da cidade do Porto e na direcção das regiões que esta cidade polarizava, em especial o Minho e o Douro.

Falta de manutenção das linhas implicou quebra de qualidade de serviço e redução da procura. Muitas ligações foram desactivadas. Porém a redução no sistema ferroviário do Douro foi mais dramática. Isso terá resultado por ser um sistema arboriforme, com um tronco central ao longo do Rio Douro, no qual convergiam ramos secundários, segundo os vales dos rios tributários, todos na margem direita: Tâmega, Corgo, Tua, Sabor. A única linha da margem esquerda, a do Varosa, entra a Régua e Lamego, acabou por não ser concluída.

Estas linhas não foram modernizadas, mantiveram-se em bitola reduzida e começaram a ser desactivadas. O sistema do Douro sofreu duplamente. A poda começou pelos ramos mais periféricos e deixou de servir os centros urbanos geradores de tráfego, os mais importantes de Trás-os-Montes: Bragança, Mirandela, Vila Real, Chaves, Amarante. Sem essa alimentação o próprio eixo central do Douro ficou muito fragilizado por redução de procura.

Porém, no final dos anos 50, a linha do Douro sofreu um golpe fatal com a suspensão do serviço entre Barca d’Alva e Fuente de San Esteban (em Espanha, onde entroncava na ligação de Vilar Formoso e Salamanca). O brio dos investidores portuenses, que permitira levantar avultados recursos financeiros para concretizar o sonho de ligar o Porto directamente à Europa, no final do século XIX, foi lamentavelmente desprezado. Essa conexão, com cerca de 70 km, corresponde a uma das mais importantes obras da engenharia portuguesa apesar de ter sido construída em Espanha. Vencia um desnível de quase 600 metros e foi implantada nas escarpas rochosas da margem direita do rio fronteiriço (Águeda), nos primeiros 12 km em Espanha, num dos cenários mais dramáticos e impressivos do nosso País. Ainda me recordo da ligação entre o Porto e Salamanca, que usava esta linha, nos anos 50.

Entretanto, muitas outras decisões criminosas ocorreram à linha do Douro. Em 1986, foram encerrados os cerca de 25 km, entre o do Pocinho a Barca d’Alva, os carris foram roubados e o restante património ferroviário degradou-se definitivamente.

Num momento em que se pretende revalorizar o modo ferroviário era bom que se estudasse a recuperação desta ligação a Espanha, que a motivação turística seguramente justificaria.

 

 

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