A Sensibilidade da Paisagem do Douro

Mesmo que o Vale do Douro não tivesse vinha e não fosse paisagem vinhateira, mesmo assim, constituiria um cenário majestoso. Seria garantidamente um monumento natural, testemunho de colossal erosão de origem fluvial, como o Grande Canyon, do Arizona. Antes disso, aquele território natural poderia ter sido uma simples continuidade dos territórios centrais da meseta. Mas, sem a posterior humanização do vale do Douro, apenas nos impressionaria o fenómeno natural que corresponde ao colossal volume de maciço rochoso que a erosão retirou e desfez nas areias, que acabaram por guarnecer as praias da costa litoral a sul do Porto.

Mas as encostas do Douro foram transformadas pelo homem, numa sábia e heróica gesta de dezenas de gerações, que fizeram terraços, fabricaram solo, contrariaram o défice de água. Este esforço continuado permitiu a instalação de vinhedos com uma das melhores aptidões vitícolas do mundo. A paisagem natural foi valorizada pelo homem por uma conjugação de arte, ousadia técnica e ambição. Houve também o uso do rio como corredor de transportes, acessibilidade e energia: a navegação tradicional, o caminho de ferro, os aproveitamentos hidroeléctricos, a navegação comercial e turística.

Em minha modesta opinião, a impressiva motivação pela paisagem duriense continua a ter por base a vastidão dos cenários que se desdobram perante os nossos olhos, independentemente do ponto em que o observador se coloque. O Douro revela-se sempre pelos seus espaços abertos. Há vastidão do Douro acrescenta-se o silêncio por efeito da rarefacção da sua ocupação humana.

No Douro, num dia claro e límpido, a transparência do ar não se manifesta apenas na visibilidade de pontos distantes. Também qualquer ruído se distingue muito longe – um latido de cão, o silvo do comboio, a espadela do rebelo… Os estímulos sensoriais são completados pelos aromas das estevas, das adegas, do solo de xisto. No Douro tudo é muito sensível e, por isso, mais frágil.

Um dia, ouvi ao Presidente Jorge Sampaio esta justa consideração: “Há um risco no Douro. Quando deixamos o nosso olhar perder-se a vaguear por esta paisagem sublime e perfeita, onde é que os nossos olhos se quedam? Fatalmente naquilo a que corresponde uma imperfeição: uma casa sem qualidade, pintada de uma cor aberrante, um aterro mal feito, ou o que não está em harmonia com tudo o resto.”

De tudo o que fica dito, resulta uma muito maior responsabilidade pelo ordenamento físico do território duriense. O Douro ainda é genuíno e sincero, pelo menos ao olhar afinado de um observador distante. Foi isso que em 2001 foi reconhecido pela UNESCO e que importa sobretudo agora preservar.