O Futuro do Douro exige um novoentendimento político

A descentralização e a reprogramação dos fundos europeus são assuntos que têm marcado a agenda politica nacional e que, inclusivamente, integraram a agenda do encontro entre o Primeiro-Ministro e novo presidente do PSD. Indubitavelmente, são temas determinantes para a coesão nacional, pois podem contribuir para a diminuição das assimetrias gritantes entre um litoral rico e um interior pobre.

Mas, a história revela uma diferença profunda entre a narrativa e a prática sobre políticas territoriais, em que o interiorestá sempre em posição de perda.O desenvolvimento do interiorexige uma visão integrada para o País,com objetivos concretos, metas compaginadas por medidas e recursos, num cenário deprestação de contas.

A descentralizaçãose for pensada na ótica da desconcentração de serviços públicos é uma boa medida contudo, insuficiente para a sustentabilidade económica e social do interior. A descentralização exige ainda entendimentos sobre as competências das autarquias, um novo pensamento sobre o regime das CCDR se novas políticas para as regiões.

Em termos da reprogramação, a proposta deve ser coerente com o discurso de desenvolvimento do interior; as orientações sobre o futuro quadro devem ir no mesmo sentido. Infelizmente, e a exemplo do passado, a realidade é diferente. A titulo de exemplo, no Norte a maioria dos projetos aprovados no Portugal 2020 localizam-se na área do Porto; no interior o número é reduzido,contrariando a lógica de convergência. Por sua vez, a reprogramação, socorrendo-se de temas socialmente bem aceites como a descarbonização, parece apontar para uma dualidade regional maior.

Um novo ciclo de entendimento político exige criar instrumentos que estimulem o desenvolvimento económico e social do território, assente no conhecimento e inovação, num ambiente globalmente competitivo. Esta lógica exige um maior envolvimento das Universidades ligadas ao território na construção de um sistema regional de inovação.

É neste cenário que o Douro deve ser pensado ao abrigo dos novos desafios societais, seguindo conceitos que permitam um desenvolvimento agrícola resiliente, sustentável e produtivo. Todas as partes interessadas na cadeia de valor, envolvendo a produção, a transformação, os consumidores e atores políticos precisam de atuar em consonância com o sistema cientifico para enfrentar desafios, como o impacto das mudanças climáticas. O futuro exige novas lógicas para pensar o Douro, enquanto região inteligente e laboratório vivo de experimentação de soluções que deem resposta aos desafios societais.

Deixamos a resposta para os principais decisores políticos. Mas, a história leva-nos a duvidarsobre um novo ciclo de compromisso efetivo para o desenvolvimento integrado do País.