O que se espera do novo governo no sector agroalimentar?

Por António Fontainhas Fernandes, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD)

É conhecido o bom resultado que Portugal tem mostrado no setor agroalimentar. No último ano, em valor, foi atingido 82% de autossuficiência, um resultado que se deve à boa execução dos fundos comunitários mas, essencialmente, a uma nova classe empresarial empreendedora, com formação, de dimensão internacional, que apostou na qualidade, diferenciação e em práticas de sustentabilidade ambiental. Estamos longe dos tempos em que os empresários agrícolas não tinham formação, eram idosos e a agricultura era o único recurso para quem não tinha melhor perspetiva de vida.

O crescimento económico sustentado, baseado no aumento das exportações e substituição das importações, é um dos principais desafios para o próximo governo. Temos a consciência que o comportamento da agricultura portuguesa dependerá de diversos fatores macroeconómicos, ambientais – incluindo as alterações climáticas – e da evolução dos mercados e preços, em particular da energia. A eficácia das ações previstas nas áreas definidas no PDR 2020 é decisiva para se cumprir esta meta. Contudo, além do apoio aos investimentos produtivos e à gestão eficiente dos recursos naturais, é fundamental apostar na promoção da inovação e conhecimento.

O próximo governo deve apostar na competitividade e internacionalização, sem esquecer o desenvolvimento rural e o combate à desertificação do interior. É fundamental focalizar a sua intervenção na inovação, tecnologia e empreendedorismo, privilegiar a transferência de conhecimento, de forma a potenciar a criação de valor acrescentado.

O aumento do número de estudantes que ingressaram no ensino superior no recente concurso nacional de acesso, em particular na área agroalimentar, confirma as potencialidades do setor. O reforço de uma nova classe empresarial e a focalização da intervenção de algumas Universidades, como a UTAD, são bons indicadores para atingir o desejável equilíbrio agroalimentar em 2020.